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segunda-feira, 25 de abril de 2016

A Mulher no Islam - Parte 2 - O Legado de Eva

Por: Sherif Abdel Azim



A imagem de Eva na Bíblia, como uma mulher sedutora, teve um impacto
extremamente negativo para as mulheres através da tradição judaico-cristã.
Acreditava-se que todas as mulheres haviam herdado da sua mãe, a bíblica
Eva, tanto a sua culpa como a sua astúcia. Consequentemente, as mulheres
não eram dignas de confiança, eram moralmente inferiores e más. Menstruação,
gravidez e parto eram consideradas punições justas para uma culpa eterna do
amaldiçoado sexo feminino.
A fim de examinarmos quão negativo foi o impacto da Eva bíblica sobre
a sua descendência feminina, temos que olhar para os escritos de alguns dos
mais importantes judeus e cristãos de todos os tempos. Comecemos pelo Velho
Testamento, e olhemos para alguns excertos da chamada Literatura da
Sabedoria, onde encontramos: "E eu achei uma coisa mais amarga do que a
morte, a mulher cujo coração são redes e laços, e cujas mãos são ataduras;
quem for bom diante de Deus escapará dela, mas o pecador virá a ser preso
por ela. Vedes aqui, isto achei, diz o pregador, conferindo uma coisa com a
outra para achar a razão delas; a qual ainda busca a minha alma, porém ainda
não a achei; um homem entre mil achei eu, mas uma mulher entre todas estas
não achei." (Eclesiastes 7:26-28).
Noutra parte da literatura hebraica, que é encontrada na Bíblia católica,
nós lemos: “Qualquer maldade é um nada diante da maldade da mulher…Foi
pela mulher que começou o pecado, e é por culpa dela que todos morremos.”
(Eclesiastes 25:19,24)
Os rabinos judeus listaram nove maldições infligidas às mulheres, como
resultado da Queda:
"Para a mulher Ele deu nove maldições e a morte: o peso do sangue da
menstruação e o sangue da virgindade; o peso da gravidez; o peso do parto; o
peso de educar crianças; sua cabeça é coberta como no luto; ela fura a orelha
como uma escrava permanente, ou escrava que serve ao seu senhor; ela não
deve ser tomada por testemunha; e depois de tudo — a morte".(2)
Nos dias atuais, judeus ortodoxos, em suas preces matinais diárias,
recitam "Abençoado-seja Deus, Rei do universo que não me fez mulher".

As mulheres, por outro lado, agradecem a Deus cada manhã por "me
fazer de acordo com Tua vontade".(3) Outra oração encontrada em muitos livros
de preces judeus: "Louvado seja Deus que não me criou gentio. Louvado seja
Deus que não me criou mulher. Louvado seja Deus que não me criou
ignorante".(4)
A Eva bíblica desempenhou um papel mais importante no cristianismo
do que no judaísmo. Seu pecado foi a base de toda a fé cristã, porque a
concepção cristã da razão da missão de Jesus Cristo na terra provém da
desobediência de Eva. Ela pecou e, então, seduziu Adão para segui-la no seu
propósito. Consequentemente, Deus expulsou ambos do Céu para a Terra, que
foi amaldiçoada por causa deles. Eles transmitiram os seus pecados, os quais
não foram perdoados por Deus e, por isso, todos os humanos nascem em pecado.
A fim de purificar os seres humanos do "pecado original", Deus teve que
sacrificar, na cruz, Jesus, que é considerado o filho de Deus. Por isso Eva é
culpada pelo seu próprio pecado, pelo pecado do seu marido, pelo pecado
original de toda a humanidade e pela morte do Filho de Deus. Por outras
palavras, uma só mulher, agindo por conta própria, causou a queda de toda a
humanidade(5). O que dizer sobre as suas filhas? Elas são pecadoras como Eva
e devem ser tratadas como tal. Ouçam o tom severo de São Paulo no Novo
Testamento: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito,
porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que
esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão
não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.” (1
Timóteo 2:11-14).
São Tertuliano foi mais brando que São Paulo, quando falava "às queridas
irmãs" na fé. Ele dizia(6): "Vocês sabem que cada uma de vocês é uma Eva? A
sentença de Deus sobre o vosso sexo subsiste até hoje: a culpa necessariamente

subsiste também. Vocês são a porta de entrada para o Diabo: Vocês são a marca da árvore proibida: Vocês são as primeiras desertoras da divina lei: Vocês são
as que persuadiram aquele homem que nem o Diabo era suficientemente valente
para atacar. Vocês destruíram tão facilmente a imagem de Deus, o homem. Por
causa da vossa deserção, até o Filho de Deus teve que morrer".
Santo Agostinho foi fiel ao legado de seus antecessores. Ele escreveu a
um amigo: "Qual é a diferença, quer seja numa esposa ou numa mãe, é ainda
da Eva tentadora que devemos precaver-nos em qualquer mulher. Eu não
consigo ver qual o uso que uma mulher pode ter para um homem, exceto a
função de dar à luz crianças".
Séculos mais tarde, São Tomás de Aquino ainda considerava a mulher
como um defeito: "Com relação à natureza individual, a mulher é defeituosa e
mal feita, porque a força ativa na semente masculina tende para a produção de
uma perfeita semelhança no sexo masculino; enquanto que a produção da
mulher provém de um defeito na força ativa ou de alguma indisposição material,
ou mesmo de algumas influências externas".
Finalmente, o famoso reformador Martinho Lutero não conseguia ver
qualquer benefício em uma mulher, a não ser trazer ao mundo tantas crianças
quanto possível, apesar das conseqüências: "Se elas se cansarem ou mesmo
morrerem, isso não é problema. Deixe-as morrer no parto, é para isso que
estão aqui".
Muitas vezes as mulheres foram difamadas por causa da imagem de Eva
como a tentadora, graças ao relato no Gênesis. Para resumir, a concepção
judaico-cristã sobre as mulheres foi envenenada pela crença na natureza
pecaminosa de Eva e da sua descendência feminina.
Se agora voltarmos a nossa atenção para o que o Alcorão diz sobre as
mulheres, perceberemos de imediato que a concepção islâmica sobre elas é
radicalmente diferente daquela encontrada no conceito judaico-cristão.
Deixemos que o Alcorão fale por si mesmo:

"Quanto aos muçulmanos e às muçulmanas, aos crentes e às crentes,
aos consagrados e às consagradas, aos verazes e às verazes, aos
perseverantes e às perseverantes, aos humildes e às humildes, aos
caritativos e às caritativas, aos jejuadores e às jejuadoras, aos recatados e
às recatadas, aos que se recordam muito de Allah e às que se recordam
d'Ele, saibam que Allah lhes tem destinado a indulgência e uma magnífica
recompensa." (33:35).

"Os crentes e as crentes são protetores uns dos outros; recomendam
o bem, proíbem o ilícito, praticam a oração, pagam o zakat, e obedecem a
Allah e ao Seu Mensageiro. Allah Se compadecerá deles, porque Allah é
Poderoso, Prudentíssimo." (9:71)

"Seu Senhor os atendeu, dizendo: Jamais desmerecerei a obra de
qualquer um de vós, seja homem ou mulher, porque procedeis uns dos
outros " (3:195)

"Quem cometer uma iniqüidade, será pago na mesma moeda; por
outra, aqueles que praticarem o bem, sendo crentes, homens ou mulheres,
entrarão no Paraíso, onde serão agraciados imensuravelmente." (40:40).

"A quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e for crente,
concederemos uma vida agradável, e premiaremos com uma recompensa,
de acordo com a melhor das suas ações." (16:97).


Está claro que a visão do Alcorão a respeito da mulher não difere da do
homem. Ambos são criaturas de Deus e têm como sublime meta adorar o seu
Senhor, fazer boas ações e evitar o mal e por isso serão avaliados
harmoniosamente. O Alcorão jamais menciona que a mulher é a porta de entrada
para o mal ou que ela é uma enganadora por excelência. O Alcorão também
jamais menciona que o homem é a imagem de Deus. Homens e mulheres são
criaturas suas, e é tudo.
De acordo com o Alcorão, o papel da mulher na terra não está limitado
somente ao parto. A ela se exige que faça boas ações, tanto quanto é exigido
aos homens. O Alcorão nunca diz que jamais existiu uma mulher correta. Pelo
contrário, o Alcorão instruiu todos os crentes, homens e mulheres, a seguir o
exemplo daquelas mulheres tais como a Virgem Maria e a esposa do Faraó:

"E Allah dá, como exemplo aos crentes, o da mulher do Faraó, a
qual disse: Ó Senhor meu, constrói-me, junto a Ti, uma morada no Paraíso,
e livra-me do Faraó e das suas ações, e salva-me dos injustos! E com Maria,
filha de Imran, que conservou o seu pudor, e a qual alentamos com o
Nosso Espírito, por ter acreditado nas palavras do seu Senhor e nos Seus
Livros, e por se ter contado entre os consagrados." (66:11/12).


2. Leonard J. Swidler, Women in Judaism: the Status of Women in Formative Judaism
(Metuchen, N.J: Scarecrow Press, 1976), pág. 115.
3. Thena Kendath, "Memories of an Orthodox youth" em Susannah Heschel, ed. On being a
Jewish Feminist (New York: Schocken Books, 1983), págs. 96-97.
4. Swidler, op. cit., págs. 80-81.
5. Rosemary R. Ruether, "Christianity", em Arvind Sharma, ed., Women in World Religions
(Albany: State University of New York Press, 1987) pág. 209.
6. Para todas as referências dos Santos proeminentes, ver Karen Armstrong, The Gospel According
to Woman (London: Elm Tree Books, 1986) págs. 52-62. Ver também Nancy van
Vuuren, The Subversion of Women as Practiced by Churches, Witch-Hunters, e Other Sexists
(Philadelphia: Westminister Press) pág. 28-30.

A Mulher no Islam - Parte 1 - O Erro de Eva?

 Por: Sherif Abdel Azim


    As três religiões concordam com um fato básico: Tanto as mulheres como
os homens foram criados por Deus, o Criador de todo o Universo. Contudo, a
divergência começa logo após a criação do primeiro homem, Adão, e da
primeira mulher, Eva. A concepção judaico-cristã da criação de Adão e Eva
está narrada detalhadamente em Gênesis 2:15-25). Lá está escrito que Deus
proibiu o homem de comer do fruto da árvore proibida. O Senhor Deus deu ao
homem uma ordem, dizendo: "E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo:
De toda a árvore do jardim comerás livremente, 17 Mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela
comeres, certamente morrerás.” (Gênesis 2:16-17). Também deu a mesma
ordem à mulher. A serpente seduziu Eva para que o comesse.

    E a mulher respondeu à serpente: "Do fruto das árvores do jardim, Deus
nos disse: “Não comais deste nem sequer o toqueis, do contrário morrereis."
Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe
que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como
Deus, sabendo o bem e o mal. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se
comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou
do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.
(Gênesis 3:4-6). A mulher notou que era tentador comer da árvore, pois era
atraente aos olhos e desejável para se alcançar inteligência. Colheu o fruto,
comeu-o e deu também ao marido, que estava junto. E ele comeu. E quando
Deus repreendeu Adão pelo que ele havia feito, ele colocou a culpa em Eva.
(Gênesis 4-12).
 
    E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de
que te ordenei que não comesses? Então disse Adão: A mulher que me deste
por companheira, ela me deu da árvore, e comi." (Gênesis 3:11-12).
    Consequentemente, Deus disse a Eva em Gênesis 16: "Multiplicarei
grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu
desejo será para o teu marido, e ele te dominará.".
    Para Adão Ele disse (Gênesis 17-19): "Porquanto deste ouvidos à voz de
tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela,
maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua
vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo.

    No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela
foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás. ".
O conceito islâmico da primeira criação é encontrado em muitas
passagens do Alcorão, por exemplo:


"Determinamos: Ó Adão, habita o Paraíso com a tua esposa e
desfrutai (juntos) dele da sua abundância como vos aprouver; porém,
não vos aproximeis desta árvore, porque vos contareis entre os injustos."
(Alcorão 2:35).

“Então, Satã lhes cochichou, para revelar-lhes o que, até então, lhes
havia sido ocultado de suas vergonhas, dizendo-lhes: Vosso Senhor vos
proibiu esta árvore para que não vos convertêsseis em dois anjos ou não
estivésseis entre os imortais. E ele lhes jurou: Sou para vós um fiel
conselheiro. E, com enganos, seduziu-os. Mas quando colheram o fruto
da árvore, manifestaram-se-lhes as vergonhas e começaram a cobrir-se
com as folhas das plantas do Paraíso. Então, seu Senhor os admoestou:
Não vos havia vedado esta árvore e não vos havia dito que Satanás era
vosso inimigo declarado? Disseram: Ó Senhor nosso, nós mesmos nos
condenamos e, se não nos perdoares e Te apiedares de nós, seremos
desventurados!" (7:20:23).


Um exame mais cuidadoso dos dois relatos sobre a Criação revela
algumas diferenças essenciais. O Alcorão, ao contrário da Bíblia, coloca a
culpa igualmente em Adão e Eva pelo erro que ambos cometeram. Não há no
Alcorão a mais leve sugestão de que Eva tentou Adão, ou mesmo que ela
tenha comido do fruto antes dele. No Alcorão, Eva não é insinuante, sedutora
ou vencida. Além do mais, Eva não pode ser culpada pelas dores do parto.
Deus, de acordo com o Alcorão, não pune ninguém pelas faltas de outro. Ambos,
Adão e Eva, cometeram um pecado e então pediram perdão a Deus, e Ele
perdoou-os.

TRINTA E TRÊS LIÇÕES DA SURATA YUSUF

Shaykh Abdur Rahmaan Naasir Al-Sa`di
“Tayseer Al-Kareem Ar-Rahmaan”



    As-Shaykh Abdurahmaan Ibn Naasir As-Sa’dee declara em seu tafsir “Tayseer Al-
Kareem Ar-Rahmaan” (pg. 408 - 412) referindo-se ao ultimo versículo da surata em que
Allah subhanahu wa ta’la diz “Na verdade, em suas estórias há uma lição para os
homens de compreensão”.
    Esta estória provém da melhor das estórias porque se refere às várias fases da vida;
da provação à tribulação, do ser testado ao ser abençoado, da humilhação à grandeza,
da escravidão à realeza, da divisão à unidade, da dor à alegria, do supérfluo à fome, da
fome à abundância, das dificuldades ao conforto, e da negação à afirmação. Portanto,
abençoado seja Aquele que a revelou da melhor forma possível.
Dentre as lições que podemos tirar desta surata estão:

1. Saber interpretar os sonhos é um ramo muito importante do conhecimento que
Allah concede, dentre Seus servos, àquele que O satisfaz. E muitos deles
(sonhos) são baseados em símbolos que são ambíguos no sentido e na
descrição. Pois, na verdade, a importância do sol, da lua e das estrelas
curvando-se para Yusuf é porque tais luzes são a beleza do céu e delas
emanam o benefício. Da mesma forma, os profetas e os estudiosos são a beleza
desta terra e por eles a humanidade é guiada através da escuridão assim como
faz a luz das estrelas do sol e da lua. Além do mais, uma vez que a fonte desta
luz é sua mãe e pai, por isso é muito conveniente que a lua e o sol simbolizem
seus pais porque deles emana a luz maior da qual ele e seus irmãos
descendem. Portanto, o sol, que é um substantivo feminino, simboliza sua mãe e
a lua, que é um substantivo masculino, simboliza seu pai e as estrelas seus
irmãos.

2. A importância do sonho de seu companheiro de prisão, que o viu espremendo as
uvas, é porque, de um modo geral, aquele que realiza tal tarefa é servo de
alguém. Assim, ele interpretou que aquele companheiro de prisão deveria ser o
servo do rei e isto lhe garantiria sua liberdade da prisão. Com relação ao
significado do sonho da pessoa que viu pássaros comendo pão no alto de sua
cabeça, Yusuf interpretou este sonho como um indicativo de que ela seria
crucificada porque o crânio protege o cérebro e quando a pessoa é crucificada e
o corpo é deixado ao relento o cérebro fica exposto e os pássaros o comem.

3. Lá também se encontram evidências da veracidade da missão de Muhammad
(que a paz esteja com ele) como profeta pois ele contou ao seu povo esta longa
estória e nunca leu qualquer livro e nem aprendeu com qualquer um deles.

4. A pessoa deve se distanciar o máximo possível de situações que a conduzam
para uma saída ruim. Também a permissibilidade de não revelar o medo da
pessoa poderia prejudicá-la, com base na declaração de Ya’qub a Yusuf: “Ele
(o pai) disse: ‘Ó meu filho! Não conte aos seus irmãos a sua visão para que
eles não conspirem contra você.’”

5. A permissibilidade de uma pessoa citar alguém como forma de um
aconselhamento sincero, algo que não é bom, com base no versículo “para que
eles não conspirem contra você.”

6. As bênçãos que Allah concede ao servo não se limitam simplesmente a um
indivíduo em particular, ao contrário, são bênçãos que o envolvem e à sua
família e aos amigos. E o benefício obtido decorre daquela pessoa, conforme a
declaração de Allah: “E assim teu Senhor o escolherá e lhe ensinará a
interpretação dos sonhos (e outras coisas) e agraciará com Sua mercê
você e a descendência de Ya’qub (Jacó) porque Ele agraciou antes seus
pais, Abrão e Ishaque (Isaac), pois Ele é Onisciente e Sapiente”.

7. A importância de ser cauteloso com as conseqüências ruins dos pecados, uma
vez que um pecado leva a vários outros. Porque os irmãos de Yusuf tentaram
várias conspirações quando quiseram separá-lo de seu pai, mentiram diversas
vezes, falsificaram o sangue na camisa, chegaram de noite fingindo que
choravam e tudo isto foi o resultado de um único pecado, uma coisa levando a
outra.

8. O que realmente importa na vida do servo é um final feliz e não um começo
inadequado. Porque os filhos de Ya’qub fizeram o que fizeram no começo, que
foi um ato realmente condenável, mas o medo deles acabou por determinar um
arrependimento sincero, o perdão integral de Yusuf e do pai e a du’a para que
fossem perdoados e recebessem a misericórdia de Allah.

9. Alguns males são menores do que outros e cometer o mal menor é sempre
melhor. Porque quando os irmãos de Yusuf concordaram em matá-lo ou atirá-lo
no poço um deles disse “Não matem Yusuf (José) mas se tiverem de fazer
alguma coisa atirem-no no fundo do poço.” Assim, essa sugestão foi melhor do
que a proposta pelos outros irmãos (apesar de ainda ser uma coisa má) e com
isso diminuiu a intensidade do pecado cometido por eles.

10.Não há pecado se a pessoa que comprar, vender ou usar qualquer coisa que
seja considerada mercadoria de acordo com as regras predominantes de
mercado. Pois os irmãos de Yusuf o venderam, o que é haram, transação não
permitida, depois ele foi encontrado por uma caravana de pessoas que o
levaram para o Egito onde foi vendido como escravo e, apesar disto tudo, Allah
se referiu a ele como “mercadoria”

11.Deve-se tomar cuidado para não ficar isolado com mulheres que podem ser a
causa de fitnah, assim como se deve ter cautela com o amor de alguém que
pode ser prejudicial. Pois a esposa do rei fez o que fez por causa de sua paixão
por Yusuf, que a levou a tentar seduzi-lo, a dizer mentiras sobre ele e a causar
sua prisão por um longo tempo.

12.Ele poderia ter desejado aquela mulher, no entanto, resistiu em nome de Allah, o
que o aproximou mais de Allah. Porque este tipo de desejo está entre as
sugestões maliciosas da alma e é algo que acontece naturalmente à maioria da
humanidade. No entanto, o amor e temor de Allah sobrepujaram a tentação para
a satisfação dos desejos. Assim, ele está entre aqueles “que temem estar
diante de seu Senhor e reprimiu os desejos impuros e a luxúria”. E,
também, entre os “sete a quem Allah protegerá com Sua Sombra no Dia do
Juízo, quando não haverá outro abrigo senão Sua Sombra: um homem que é
seduzido por uma bela mulher e na posição (para a relação sexual ilegal) mas
que diz: ‘Temo Allah’”.

13.Sempre que o iman entrar no coração e a pessoa se dedicar com sinceridade a
Allah, Ele a defenderá de todos os tipos de males e vulgaridade por causa de
seu iman e de sua sinceridade, conforme declaração de Allah: “Assim fizemos
para afastá-lo do mal e da obscenidade. Por certo ele era um dos Nossos
sinceros servos”.

14.Sempre que o servo vir uma situação que possa levá-lo a fitnah ou ser causa de
pecado, ele deve fugir o máximo possível para salvar-se do pecado.

15.Yusuf era dotado de uma beleza interna e externa. Foi sua beleza externa que
fez a esposa do rei agir daquela forma e fez com que as outras mulheres
ferissem as mãos, enquanto diziam, “Como Allah é Perfeito (ou Valha-nos
Deus)! Ele não é deste mundo. Não é senão um anjo nobre.” Sua beleza
interna provinha de sua grande castidade e autocontrole apesar dos vários
apelos para que pecasse. Por isto a esposa do rei disse “Procurei seduzi-lo
mas ele resistiu”.

16.Quando existe uma atmosfera para o pecado, o servo deve sempre recorrer a
Allah e distanciar-se de sua própria força e poder, conforme declaração de
Yusuf. “Se não afastares de mim as suas conspirações me sentirei inclinado a
elas e serei um (daqueles que pecam e merecem censura) dos ignorantes.”

17.Saber e inteligência levam a pessoa a praticar o bem, ao mesmo tempo em que
a afasta do mal. Por outro lado, a ignorância incita o ignorante a se submeter
aos seus desejos mesmo que isto possa significar sua ruína.

18.Assim como o servo adora Allah nos tempos de bonança, de igual forma ele
deve adorá-Lo nas horas difíceis. Pois Yusuf estava sempre invocando Allah,
por isso quando ele foi preso continuou a fazer dawah. Ele chamou os dois
jovens para o tawhid e os preveniu contra o shirk. Daí que, com sua perspicácia,
Yusuf percebeu que eles haviam se sensibilizado com sua dawah pelo que eles
lhe disseram “Nós achamos que você é um dos Mushinum (praticante do
bem)”. Assim, esta era uma oportunidade de ouro para a dawah. Ele aproveitou
para chamá-los para Allah antes de interpretar os seus sonhos para que seu
objetivo (chamar para o Islam) fosse mais frutífero. Então, em primeiro lugar,
Yusuf esclareceu os dois jovens que tudo o que tinham percebido nele em
relação ao caráter nobre e conhecimento profundo era o resultado da crença em
Allah e lhes indicava a adoração (tawhid). E ele abandonou o caminho daqueles
que não acreditam em Allah e no Juízo Final. Assim, primeiro ele lhes deu
dawah por intermédio de suas ações e depois lhes deu dawah por intermédio de
suas palavras que mostravam a eles a corrupção do shirk e a realidade do
tawhid.

19.A importância das prioridades. Porque quando os dois jovens lhe pediram para
interpretar seus sonhos, havia outras questões mais importantes que eles
precisavam conhecer antes de terem o pedido atendido. Este é o sinal de um
professor dotado de grande inteligência e habilidade para guiar e ensinar
corretamente, porque quando os rapazes perguntaram sobre seus sonhos, ele
primeiro os chamou para Allah antes da interpretação dos sonhos.

20.Não se considera depender de outros (em lugar de Allah); se acontecer de uma
pessoa estar em uma situação difícil e procurar a ajuda de alguém que ela acha
que possa aliviar sua situação porque para esta pessoa não há censura se ela
agir assim. Isto porque sempre foi um costume das pessoas buscar ajuda entre
si em tais questões. Por isso, Yusuf disse àquele que sabia estar a salvo,
“Recorda-te de mim ao teu senhor (seu rei, para que me tire da prisão)”.

21.Aquele que ensina deve tentar sempre ser sincero quando ensina e não deve
usar seu cargo como meio para obter riqueza, posição ou benefícios pessoais.
Além do mais, não deve se negar a transmitir o conhecimento ou dar conselho
mesmo que aquele a quem ensina ou aconselha não faça o que ele (professor)
pediu. Porque, na verdade, Yusuf (que a paz esteja com ele) aconselhou a um
dos jovens que mencionasse sua situação ao rei mas ele se esqueceu de fazêlo.
No entanto, decorrido o tempo e quando o rei precisou de Yusuf, alguém foi
enviado a ele. Apesar disto, Yusuf não o puniu por ter esquecido de mencionar
sua situação ao rei, pelo contrário, respondeu à pergunta que tinha sido feita.

22.Não há censura para a pessoa que se defende contra uma falsa acusação.
Melhor dizendo, é algo louvável. Porque Yusuf recusou-se a deixar a prisão até
que sua inocência fosse provada.

23.A interpretação de sonhos é um ramo das ciências islâmicas e a pessoa é
recompensada por estudá-la e ensiná-la. A interpretação de sonhos também se
encontra na categoria de fatwa porque ele disse aos dois jovens: “Assim é o
caso julgado em relação ao que vocês pediram” (tas’taftiyaan – procurou uma
fatwa). O rei disse “Explique-me meu sonho (aftoonee – dê-me uma fatwa) e
o jovem disse a Yusuf “Explique-nos (aftinaa – dê-nos uma fatwa) o
significado (do sonho) das sete vacas gordas.” Portanto, não é permitido
interpretar os sonhos senão com o conhecimento (shari’ah).

24.Se a pessoa não for pretensiosa ou desonesta, não deve ser criticada por
informar os outros sobre suas qualidades louváveis, desde que com isto ela
pretenda trazer um benefício geral, com base na declaração de Yusuf “Confiame
os armazéns do país; eu os guardarei com plena sabedoria.” Da mesma
forma, a liderança não é algo que seja censurável se aquele que a detiver
cumprir com os direitos de Allah e os direitos de Seus servos no melhor de sua
capacidade.

25.Allah é muito generoso com Seus servos, dando-lhes o melhor desta vida e da
outra. O meio de se conquistar o melhor da próxima vida é tendo iman e taqwa.
O servo deve sempre invocar a Allah por suas recompensas e graças e não
deve se desapontar quando vir as pessoas gozando dos prazeres deste mundo
dos quais ele seja incapaz de compartilhar. Antes, deve pedir a Allah por Suas
grandes recompensas e graças na próxima vida, conforme Sua declaração “E
por certo a recompensa da outra vida é preferível para aqueles que
acreditam e temem Allah e mantêm suas obrigações para com Ele”.

26.É da sunnah dos profetas hospedar o convidado e tratá-lo condignamente
baseado na declaração de Yusuf “Não notaram que eu vos cumulo à medida
e que sou o melhor dos anfitriões?”

27.Ter pensamentos negativos sobre alguém nem sempre é proibido desde que
acompanhados de provas que amparem a suspeita. Porque, em verdade,
Ya’qub disse a seus filhos depois que eles chegaram alegando que um lobo
havia comido Yusuf “Qual, vós mesmos criaram uma fábula”. E ele disse,
olhando o irmão mais próximo “Posso confiá-lo a vós como anteriormente
vos confiei seu irmão (Yusuf)?”

28.Se alguém não quiser que uma outra pessoa saiba de algo que ela tem ou que
pretenda fazer, deve usar de meios sutis de distração mas que não contenha
qualquer mentira.Como Yusuf fez quando colocou a ânfora de ouro na sacola de
seu irmão e depois o retirou levando os outros irmãos a acharem que aquele
irmão o tinha roubado. Após o que ele disse “Allah me perdoe, não reteremos
senão aquele em cujo poder encontramos nossa ânfora”. Observe-se que
ele não disse “Encontramos nossa ânfora com ele” ou “Ele roubou algo que
era nosso”. Ao contrário, ele falou de uma forma genérica que poderia se
aplicar tanto àquela situação como a outras e não há nada de errado com o que
ele fez. Apesar disto, Yusuf fez com que eles achassem que o irmão tinha
roubado a ânfora de ouro e assim o irmão mais novo pudesse permanecer com
ele, que era o objetivo.

29.Não é permitido a uma pessoa prestar testemunho senão sobre o que ela tiver
pleno conhecimento. E esse conhecimento pode advir do fato de ela ter
presenciado o fato ou de ter sido informada por alguém confiável, com base no
que disseram os irmãos de Yusuf “Não declaramos senão aquilo que
sabemos”.

30.A permissibilidade de informar os outros sobre as dificuldades que alguém está
passando, enquanto isto não for feito de uma forma que indique que a pessoa
está incomodada com o mandamento de Allah, pois os irmãos de Yusuf se
queixaram “Ó governante! A miséria se abateu sobre nós e nossa família”.
E Yusuf não contestou esta afirmação.

31.Os méritos de taqwa e de sabr (paciência) porque todo benefício nesta vida e na
outra é o resultado de taqwa e do sabr, conforme disse Allah “Na verdade,
Allah, nos agraciou porque quem teme e é paciente sabe que Allah jamais
frustra a recompensa dos Muhsinun (benfeitores)”

32.Aquele a quem Allah abençoou após viver um estado de pobreza ou aflição deve
reconhecer a generosidade de Allah sempre se lembrando de sua condição
anterior. Assim, ele será capaz de agradecer a Allah toda vez que se lembrar de
dos tempos de dificuldade, conforme disse Yusuf (que a paz esteja com ele),”Ele
me beneficiou quando me tirou da prisão e ao trazer vocês (todos aqui) do
deserto depois de Satanás ter mostrado a discórdia entre mim e meus irmãos”.

33.O servo deve sempre exaltar Allah por ter permitido que permanecesse
perseverante no iman, praticando boas ações que fazem com que o iman
continue firme. Também deve sempre pedir a Allah para que tenha um final feliz,
com o aperfeiçoamento de Sua Graça sobre ele, como base na du’a de Yusuf
(que a paz esteja com ele) “Senhor meu! Tu me agraciaste com a soberania
e me ensinaste a interpretação dos sonhos; Ó Criador dos céus e da terra!
Tu és meu Wali (Protetor, Socorredor, Guardião, etc.) neste mundo e no
outro, faze com que eu morra como muçulmano e junta-me aos justos”.


Foi pela vontade de Allah, foi o que Ele me possibilitou falar com relação aos benefícios
e lições obtidos desta estória abençoada. Contudo, para aquele que medita, tem a
certeza de descobrir outros benefícios advindos da surata além dos acima
mencionados. Assim, pedimos a Allah, o mais Elevado, que nos abençoe com o
conhecimento benéfico e ações que sejam aceitáveis por Ele, pois Ele é o mais
generoso e mais misericordioso.

sábado, 23 de abril de 2016

Bilal Ibn Rabah (parte 2 de 2): O primeiro muezzin do Islã

Descrição: Das profundezas da escravidão para elevados minaretes.
Por Aisha Stacey 



A aceitação do Islã por Bilal Ibn Rabah é uma história poderosa, envolvendo escravidão, conversão, tortura e resgate.  Toca aspectos do racismo, é uma lição sobre pluralismo e nos ensina que a piedade é a única maneira de medir o valor de uma pessoa. A história de Bilal é também a história do adhan, ou chamada para a oração, porque Bilal também foi o primeiro muezzin do Islã[1].
Em todo o mundo, um dos símbolos mais comoventes do Islã é a chamada melodiosa para a oração. Seu som sublime ecoa através de cidades e prados, praias, em campos férteis e em vales estéreis.  Uma vez ouvido, o som do adhan nunca é esquecido e muitas pessoas entraram na religião do Islã simplesmente ao ouvir esse som cheio de alma.  O adhan, que significa anúncio, é mencionado apenas uma vez no Alcorão, mas desempenha uma parte fundamental na vida de um muçulmano. 
Aqueles que nascem no Islã geralmente é o primeiro som que ouvem.  Imediatamente após o nascimento, o pai ou qualquer outro muçulmano importante na vida da criança, segura o recém-nascido e sussurra as palavras do adhan em seu ouvido direito.  A hora da oração é anunciada cinco vezes ao dia, de altos minaretes ou relógios e computadores.  Quando um muçulmano ouve o adhan, começa a preparação para a oração. Bilal, por causa de sua bela voz, teve a honra de ser o primeiro homem no mundo a chamar o adhan e chamar os adoradores para a oração.
“Ó crentes, quando fordes convocados, para a Oração da Sexta-feira, recorrei à recordação de Deus e abandonai os vossos negócios; isso será preferível, se quereis saber.” (Alcorão 62:9)
No ano 622 o profeta Muhammad, Bilal e a maior parte da comunidade muçulmana em fuga migrou para Medina.  Foi lá que o profeta Muhammad, que Deus o exalte, começou o trabalho de estabelecer a nação muçulmana. Bilal estava a seu lado sempre que possível e como disse um comentador: “Todo evento na vida de Muhammad era um evento na vida de Bilal” [2].  Diz-se que Bilal era tão próximo ao profeta Muhammad que tinha o dever de acordá-lo pela manhã.[3]
De acordo com as tradições autênticas, o profeta Muhammad estava preocupado e ansioso para encontrar uma forma de convocar os muçulmanos para a oração. Queria algo único. Foi aqui que Abdullah bin Zaid, um dos companheiros, informou ao profeta sobre um sonho que tinha tido.
“Nele aparecia para mim em um sonho um homem usando duas vestimentas verdes, em cuja mão estava um sino. Disse: “Ó servo de Deus, você vai vender esse sino?”. Ele disse: “O que você fará com isso?” Eu disse: “Chamaremos as pessoas para a oração com ele.”  Ele disse: “Posso mostrar algo melhor?” Eu disse: “Sim.”  Ele disse: “Diga Allaahu akbar Allaah akbar …”[4]
Deus é Grande!  Deus é Grande!  Testemunho que não há verdadeira divindade, exceto Deus.  Testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Deus.  Venha para a oração!  Venha para a oração!  Venha para a salvação! Venha para a salvação! Deus é Grande! Deus é Grande!  Não há verdadeira divindade, exceto Deus.[5]
A tradição continua.  “O profeta Muhammad ouviu a descrição do sonho e disse: “Esse é um sonho verdadeiro (significando um sonho enviado por Deus).  Pegue Bilal e diga o que viu e ensine as palavras para que ele possa fazer o chamado, porque ele tem uma voz bonita.”  Então fui até Bilal, contei a ele meu sonho e ele fez o chamado para a oração.  Umar ibn al-Khattab ouviu o chamado enquanto estava em sua casa, saiu, arrastando seu manto e dizendo: “Por Aquele que o enviou com a verdade, Ó Mensageiro de Deus, tive o mesmo sonho.”  O profeta Muhammad ficou satisfeito e disse: “Louvado seja Deus.”[6]
Na década após a migração, Bilal acompanhou o profeta Muhammad em todas as suas expedições militares e teve a honra de carregar a lança do profeta Muhammad. Lutou na batalha de Badr e como consequência matou seu antigo dono, Umaya ibn Khalaf.  Bilal também estava presente na batalha de Uhud e na batalha de Trench.[7]
A vida de Bilal após sua conversão ao Islã teve muitos momentos de grande alegria. Entretanto, sua maior honra deve ter sido em 630 EC, em uma ocasião considerada como um dos momentos mais consagrados na história islâmica.  Depois que os exércitos muçulmanos tinham conquistado Meca, Bilal ascendeu ao topo da Caaba, a casa de Deus, para chamar os crentes para a oração.  Essa foi a primeira vez que o chamado para a oração foi ouvido dentro da cidade mais sagrada do Islã.
Depois da morte do profeta Muhammad, Bilal nunca mais se sentiu o mesmo.  Um dia após a morte do profeta, Bilal foi fazer o adhan usual para a oração da manhã.  Enquanto fazia o adhan se abateu e lágrimas começaram a rolar por seu rosto.  Conseguiu terminar o resto do adhan em voz baixa.  Depois disso, Bilal parou de chamar o adhan em Medina.
As memórias de Medina eram muito difíceis e ele partiu.  Posteriormente, ao visitar Medina a pedido dos netos do profeta Muhammad, concordou em fazer oadhan.  Memórias antigas que estavam em seu coração foram reavivadas e aqueles que tinham experimentado os dias dourados como profeta Muhammad não conseguiram segurar suas lágrimas. 
Acredita-se que Bilal morreu na Síria entre 638 e 642 EC. O Imam al-Suyuti em seu livro ‘Tarikh al-Khulafa’ escreve, “Ele (Bilal) morreu em Damasco quando estava com sessenta anos.” Outros são de opinião que ele morreu em Medina.  Estamos certos que sua morada eterna é o paraíso, porque o profeta Muhammad, que Deus o exalte, chamou Bilal de “um homem do paraíso”[8].




Notas de rodapé:
[1] Aquele que chama os crentes para a oração.
[2] H.A.L Craig.  (http://www.alhamra.com/Excerpts/BilalExcerpt.htm)
[3] Barry Hoberman
(http://www.saudiaramcoworld.com/issue/198304/the.first.muezzin.htm)
[4] Ahmad, At-Tirmidhi, Abu Dawood, & Ibn Majah
[5]Tradução para o português
[6] Ahmad, At-Tirmidhi, Abu Dawood, & Ibn Majah
[7] H.A.L Craig.  (http://www.alhamra.com/Excerpts/BilalExcerpt.htm)
[8] Saheeh Muslim

Bilal Ibn Rabah (parte 1 de 2): Da escravidão à liberdade

Descrição: Em face da tortura um homem se apega à sua nova religião.
Por Aisha Stacey



“Estava presente... quando Mohammad, o mensageiro de Deus, caminhava na terra. Ouvi o que ele disse e vi o que ele disse...” Assim começa um livro baseado na vida de um dos companheiros mais próximos do profeta Muhammad - Bilal Ibn Rabah.
Bilal era um escravo negro, quase certamente o filho de escravos, e acredita-se que era da Abissínia (agora conhecida como Etiópia).  Nascido em servidão, provavelmente nunca esperou que a vida lhe oferecesse mais do que trabalho duro e dor.  Entretanto, Bilal andou pela terra em uma época muito importante.  Era um escravo na cidade de Meca quando um homem iletrado começou a chamar as pessoas para adorar o Deus Único.  Esse homem era Muhammad, o Mensageiro de Deus, que Deus o louve, e sua mensagem era para toda a humanidade. 
Quando uma pessoa é pobre ou destituída, faminta ou tem medo, ou tem marcas de espancamento e destruído, uma mensagem imbuída com os conceitos de misericórdia, perdão e justiça é muito atraente.  Os destituídos eram exatamente o tipo de pessoas que corriam para o lado do profeta Muhammad, ansiosos por conforto em suas palavras e atos.  Bilal, possivelmente o primeiro africano a se converter ao Islã, aceitou a mensagem de todo o coração.  A vida para Bilal era fazer valer a pena algo importante.  Como um homem se afogando que se agarra a uma corda que o levará para a segurança, Bilal se agarrou às palavras do Deus Único e elas foram essenciais para salvar sua vida.
Bilal ouvia a mensagem de Muhammad, que Deus é Único, o Todo-Poderoso, Misericordioso, mas também ouvia as palavras de seu dono.  Umayya ibn Khalaf, um mecano rico, estava preocupado que seu sustento baseado na idolatria seria prejudicado pela mensagem de Muhammad.  Falou com outros que também estavam preocupados com as mudanças no cenário político e religioso de Meca, dizendo: “Muhammad nunca foi um mentiroso, mágico ou louco, mas temos que descrevê-lo dessa forma até que afastemos dele aqueles que correm para sua religião.”
De acordo com o biógrafo Ibn Ishaq e outros[1], Bilal sofreu terrivelmente por sua aceitação imediata da mensagem de Muhammad.  Conta-se que lhe batiam sem misericórdia, arrastado pelas ruas e vales de Meca pelo pescoço e sujeito a longos períodos sem comida ou água.  Relata-se que seu dono Umayya ibn Khalaf “na parte mais quente do dia o deitou de costas no chão do vale, colocou uma grande pedra sobre seu peito e disse ‘ficará aí até que morra ou negue Muhammad e adore al-Lat e al-’Uzza’”[2].  Bilal não renunciou ao Islã e no meio de seu sofrimento pronunciou uma única palavra - Ahad (significando Deus Único) [3]
Notícias do escravo que clamou que “Deus é Único!” mesmo no meio de tortura logo alcançou o profeta Muhammad e seus companheiros.  Abu Bakr, o amigo mais próximo do profeta Muhammad e um negociante rico de status equivalente ao de Umaya, foi enviado para investigar.   Chegou ao vale onde Bilal estava sendo torturado para diversão. Abu Bakr não perdeu sua paciência, porque não era o seu comportamento, mas argumentou com os torturadores.  Disse para Umaya: “Não teme a Deus pelo tratamento dado a esse pobre homem?”  Ele respondeu dizendo: “Você é um dos que o corromperam, então o salve desse sofrimento!” Abu Bakr respondeu: “Então o venda para mim. Diga seu preço.” Umaya era um homem de negócios e não podia abrir mão de um lucro. Então vendeu Bilal por um bom preço. Para humilhar Bilal, acrescentou: “Eu o teria vendido a você mesmo que me oferecesse somente uma onça de ouro.”  Abu Bakr respondeu: “Eu o teria comprado de você mesmo que tivesse pedido cem onças.”
Bilal recebeu cuidados e recuperou a saúde.  Quando se recuperou foi levado ao profeta Muhammad e ficou do seu lado dando apoio e chamando outros para o Islã. Na época do profeta Muhammad a escravidão era uma instituição enraizada em todo o mundo.  As leis do Islã buscaram emancipar os escravos. Deus menciona no Alcorão que a expiação para muitos pecados é libertar um escravo e é considerado um ato de piedade.
Bilal amava estar na companhia do profeta Muhammad e se tornou excepcionalmente próximo dele.  Várias tradições mencionam que Bilal tinha a honra de acordar o profeta todas as manhãs e de passar o maior tempo possível em sua companhia.  A história de Bilal geralmente é usada para demonstrar a importância do pluralismo e da igualdade racial no Islã.  O mais importante é um exemplo de a virtude ser a medida de um homem, ao invés de raça, etnia ou status social. 
Em parte 2 aprenderemos mais sobre Bilal, a migração muçulmana para Medina e a grande honra concedida a Bilal, o escravo liberto da Abissínia.


Notas de rodapé:
[1] Ibn Hisham & Talqih Fuham Alil Athar p61.
[2]Idolatria pelo povo de Meca.
[3]A palavra árabe Ahad é usada no lugar da palavra em português um ou da palavra árabewahad por causa de seu significado - não apenas o número, mas Deus Único.

Abdullah Ibn Salam (parte 2 de 2): Um homem entre as pessoas do paraíso

Descrição: O conhecimento de Abdullah Ibn Salam sobre o Torá o levou à religião do Islã.
Por Aisha Stacey



Na nova cidade de Medina as relações entre todas as filiações políticas eram tensas.  A composição da sociedade era mantida pelas alianças tribais e políticas e qualquer mudança ameaçava afundar a área no caos.  O advento do Islã era uma dessas mudanças.  O profeta Muhammad e seus seguidores foram convidados a se relocarem para Yathrib (agora conhecida como Medina) com o profeta Muhammad, que Deus o exalte, assumindo a liderança da área circunvizinha.  As habilidades diplomáticas e lealdade do profeta eram bem conhecidas e admiradas. Entretanto, alguns grupos, particularmente alguns grupos judaicos, não queriam qualquer mudança a suas tênues, mas ainda assim lucrativas, alianças.  Assim era o cenário político de Medina e nessa mistura surgiu Abdullah Ibn Salam.
Na parte 1 aprendemos que Husain Ibn Salam era um sábio judeu bem respeitado e que desfrutava da confiança de sua comunidade.  Por causa de seus estudos Ibn Salam estava convencido que o profeta Muhammad era o profeta predito no Torá.  Quando o profeta Muhammad chegou a Medina, Ibn Salam correu para a sua presença e declarou sua crença nos ensinamentos do Islã e na missão profética de Muhammad.   O profeta Muhammad mudou o nome de Ibn Salam de Husain para Abdullah (o servo de Deus).
Abdullah Ibn Salam estava excitado de estar na companhia do profeta Muhammad.  Passou tanto tempo quanto possível com ele fazendo perguntas, conversando sobre o Islã e o Judaísmo e desfrutando da companhia do homem que o Torá havia predito tanto tempo atrás.  Abdullah Ibn Salam queria muito que seu povo aceitasse o Islã como sua religião e Muhammad como seu profeta. Entretanto, temia como reagiriam se os informasse de sua conversão.  Ibn Salam era conhecido entre os judeus como um homem virtuoso e bem educado e discutiu seu problema com o profeta Muhammad. Concordaram a respeito de um plano.
Um dia, quando estava na companhia dos respeitados anciãos judeus de Medina, o profeta Muhammad perguntou-lhes suas opiniões sobre o caráter de Ibn Salam.  Responderam: “Ele é o melhor dentre nós, o filho do melhor entre nós, o que tem mais conhecimento e o filho do que tem mais conhecimento” [1] e o profeta Muhammad continuou a questioná-los e a perguntar suas opiniões se Ibn Salam aprendesse e aceitasse o Islã.  Os judeus reagiram com horror.  Ele jamais faria isso, clamaram!  Nesse momento Ibn Salam entrou e declarou sua conversão ao Islã.  Os judeus reagiram com raiva, mas Ibn Salam sabia que os livros revelados judaicos tinham previsto a vinda do profeta Muhammad. 
Embora as alianças fossem tênues, todas as facções políticas em Medina, pelo menos no início, aceitaram a liderança do profeta Muhammad.  Até levavam questões da lei religiosa para ele.  Em uma ocasião quando um grupo de judeus solicitou que o profeta Muhammad emitisse uma sentença sobre um casal adúltero, ele imediatamente perguntou qual era a regra de acordo com o Torá.  Eles responderam: “Divulgamos seu erro e os chicoteamos.”
 Ibn Salam sabia que a punição correta era apedrejamento e insistiu que o próprio Torá fosse usado para confirmar suas palavras.  Foi trazida uma cópia do Torá e descobrimos que havia sido dada uma resposta incorreta para deliberadamente enganar o profeta.  Abdullah Ibn Salam apontou as passagens corretas que estavam habilmente ocultas sob a mão do homem judeu segurando o pergaminho.  A punição no Torá era apedrejamento, Ibn Salaam leu as passagens corretas e o profeta Muhammad ordenou que a regra fosse mantida.
Abdullah Ibn Salam amava estar na companhia do profeta Muhammad.  Passava tanto tempo quanto possível com ele e ficava contente com suas conversas e companhia.  Era devotado ao Alcorão e estava frequentemente na mesquita orando, aprendendo e ensinando.  Era conhecido entre os muçulmanos como um professor eficiente e dedicado e seus círculos de estudos eram populares e muito frequentados.  Abdullah Ibn Salam também era conhecido entre os muçulmanos de Medina como um homem destinado ao Paraíso.  Entre as tradições autênticas do profeta Muhammad existe uma história que explica exatamente por que Abdullah Ibn Salam era considerado uma das pessoas do Paraíso.
Qays bin `Abbad disse: “Estava na mesquita quando veio orar um homem cuja face mostrava sinais de humildade. As pessoas disseram: “Esse é um homem entre as pessoas do paraíso”.  Quando ele partiu, o segui e falei com ele.  Disse a ele: “Quando você entrou na mesquita as pessoas disseram que é uma das pessoas do Paraíso.” Ele respondeu: “Todos os louvores são para Allah! Ninguém deve dizer o que desconhece.  Contarei por que eles dizem isso.  Tive um sonho durante a época do mensageiro de Deus e o narrei a ele. Vi que estava em um jardim verde (e descreveu as plantas e a vastidão do jardim) e havia um poste de ferro no meio do jardim afixado na terra e seu topo alcançava o céu.  Em sua ponta havia uma alça e me disseram para subir no poste.  Eu disse: “Não posso”. Então um ajudante veio e levantou minha túnica e me disse: “Suba”. Subi até que segurei a alça e ele me disse: “Segure na alça.” Acordei daquele sonho com a alça em minha mão.  Fui até o mensageiro de Deus e lhe contei sobre o sonho e ele disse: “O jardim representa o Islã, o poste, representa o pilar do Islã e a alça representa o apoio mais confiável. Você permanecerá muçulmano até morrer.” [2]


Notas de rodapé:
[1] Saheeh Al-Bukhari
[2] Imam Ahmad

Abdullah Ibn Salam (parte 1 de 2): O que há em um nome?

Descrição: Um estudioso judeu reconhece eventos prognosticados no Torá e aceita o Islã.
Por Aisha Stacey



Em 622EC o profeta Muhammad, que Deus o exalte, e a maioria da comunidade muçulmana migraram de Meca para Medina.  Na época Medina era conhecida como Yathrib.  Era mais uma série de fortalezas e fortificações nas quais várias facções políticas estavam unidas por alianças tênues do que uma cidade.  Medina era governada por duas grandes tribos árabes, os Khazraj e Aws. 
Um grupo de líderes influentes convidaram o profeta Muhammad e seus seguidores para Medina. Quando o profeta Muhammad chegou lá, vários dos clãs judeus ficaram incomodados, para dizer o mínimo.  Nesses primeiros anos problemáticos o profeta estabeleceu o primeiro estado islâmico.  Durante essa época alguns indivíduos medinenses judeus aceitaram o Islã, o mais famoso dos quais foi Abdullah Ibn Salam, um estudioso religioso e rabino bem respeitado e querido.
Husain Ibn Salam, como era conhecido na época, era um homem religioso, dedicado ao estudo e à contemplação.  Também trabalhava em seu pequeno pomar/plantação de tâmaras, mas organizava seu tempo de tal forma que seu estudo religioso e devoção sempre tinham precedência.  Estudou o Torá em detalhes, embora registros históricos pareçam indicar que o estudo do Talmude desempenhou um papel pequeno no Judaísmo na Península Arábica na época.  De qualquer maneira, por causa de seu estudo Husain estava ciente dos versos no Torá mencionando um profeta que completaria a mensagem de todos os profetas anteriores.  Quando ouviu os relatos de um homem em Meca que reivindicava ser esse profeta, o mensageiro de Deus, ficou imediatamente interessado.
Nas tradições autênticas e na tradução das palavras do próprio Husain /Abdullah, encontramos a passagem a seguir: “Quando ouvi sobre o aparecimento do mensageiro de Deus, comecei a fazer perguntas sobre seu nome, genealogia, características, sua época e lugar e comecei a comparar essas informações com o que estava contido em nossos livros. A partir dessas perguntas me convenci sobre a autenticidade de sua missão profética e afirmei a verdade de sua missão.”
Por algum tempo, possivelmente anos, Husain Ibn Salam continuou a estudar sua escritura e a ouvir as notícias sobre o profeta Muhammad.  Então, em 622 EC, mensageiros correram para as ruas de Medina anunciando que o mensageiro de Deus estava em Quba, a uma pequena distância de Medina.  As histórias relatam que Husain estava em sua plantação de tâmaras, no alto de uma tamareira.  Quando ouviu as notícias ele gritou Allahu Akbar - Deus é grande.  Sua tia mais velha pode ouvir a excitação na voz dele e argumentou declarando que ele não estaria mais excitado se o próprio Moisés estivesse prestes a entrar na cidade.
Essas palavras estavam corretas porque Husain Ibn Abdullah era de opinião que Muhammad era o irmão de Moisés, uma vez que ambos eram profetas.  Sem hesitação Husain se juntou às multidões correndo para as ruas, esperando encontrar e saudar o profeta Muhammad.  Husain relata que avançou entre a multidão esperando ficar próximo do homem pelo qual tinha estado esperando.  As primeiras palavras que Husain ouviu dos lábios do profeta Muhammad foram “Ó povo! Espalhe a paz... compartilhe a comida... ore durante a noite enquanto outros dormem... e entrarão no paraíso em paz...” [1]
Husain olhou nos olhos do profeta de Deus, escrutinou seu rosto e disse com certeza completa: “Não há divindade merecedora de adoração exceto Allah e Muhammad é o mensageiro de Allah”.  Ao ouvir as palavras que saíram tão espontaneamente dos lábios do homem, o profeta se voltou para ele e perguntou com voz gentil, mas forte: “Qual o seu nome?” Husain respondeu: “Husain Ibn Salam”.  “Desse dia em diante”, disse o profeta Muhammad, “será conhecido como Abdullah Ibn Salam”. 


Notas de rodapé:
[1] At-Tirmidi & Ibn Majah