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sábado, 23 de abril de 2016

Ali, filho de Abu Talib (parte 2 de 2): De Guerreiro a Califa

Descrição: A vida de Ali, o leão.
Por Aisha Stacey



Ali foi o quarto dos califas sabiamente guiados.[1]  Seguiu as pegadas do profeta Muhammad, Abu Bakr, Omar e Uthman e governou o império muçulmano de acordo com a lei revelada de Deus, de aproximadamente 656 a 661 EC.  Ali era o primo jovem e genro do profeta Muhammad.  Passou sua infância imitando o caráter nobre de seu amado primo e sua juventude aprendendo os detalhes do Islã.  Ali cresceu e se transformou em um nobre guerreiro; forte fisicamente e assertivo, mas com um coração humilde, cheio de amor por Deus e Seu mensageiro Muhammad.  Os muçulmanos se lembram de Ali por sua coragem, honestidade, comportamento generoso e gentil com as outras pessoas e sua devoção firme ao Islã.
Depois da migração para Medina, Ali se casou com Fátima, a filha do profeta Muhammad.  O jovem casal levou uma vida simples e austera, porque Ali não se importava com a riqueza material, focando em agradar a Deus e alcançar bênção eterna na outra vida.  Não tinham servos ou escravos.  Ali carregava água e Fátima moía o milho até suas mãos ficarem ásperas e inchadas.  Uma vez o jovem casal se aproximou do profeta Muhammad pedindo um servo e ele os repreendeu, dizendo que não podia lhes dar luxos quando pessoas pobres e famintas enchiam a mesquita. 
Naquela noite o profeta Muhammad visitou Ali e Fátima.  Sentou na borda da cama do casal e ensinou palavras de recordação para louvar Deus.  Garantiu-lhes que a recordação de Deus seria mais benéfica para eles do que um servo ou escravo para facilitar a carga de trabalho.  Ali nunca esqueceu os conselhos recebidos aquela noite e mais tarde em sua vida disse que não se passava uma noite sem que recitasse aquelas palavras antes de dormir.  Ali e sua família passaram grandes dificuldades para agradar a Deus. Frequentemente passavam fome para distribuir toda a comida aos mais pobres que eles.  A generosidade de Ali cresceu sem limites e ele tratava a todos com respeito e gentileza.
O sábio Imame Ahmad descreveu Ali como um dos mais virtuosos companheiros do profeta Muhammad e Ali era conhecido por estar entre os mais fiéis apoiadores do profeta.  Ali merecidamente se tornou conhecido como um guerreiro forte e distinguiu-se na primeira batalha crucial contra os descrentes de Meca, conhecida como a batalha de Badr.  O jovem “leão” participou em todas as batalhas travadas nos primeiros dias do Islã, exceto em uma ocasião.  Relata-se nas tradições autênticas do profeta Muhammad que durante a batalha de Khaibar o profeta Muhammad concedeu uma grande honra a seu jovem primo.
O profeta Muhammad informou aos seus companheiros: “Amanhã darei o pavilhão (bandeira) ao homem que ama Deus e Seu mensageiro e também é amado por Deus e Seu mensageiro. Ele não foge do campo de batalha e Deus trará a vitória através dele.”  Os companheiros do profeta Muhammad passaram a noite imaginando a quem a bandeira seria entregue.  Acredita-se que Omar Ibn Al Khattab disse que foi a única vez que ansiou pela liderança, mas essa honra particular coube a Ali.
Depois que Uthman Ibn Affan foi assassinado a serviço da nação muçulmana, Ali foi escolhido como o quarto daqueles conhecidos como os califas sabiamente guiados.  Muitos muçulmanos estavam ansiosos para Ali assumir a liderança, mas Ali estava preocupado que as sementes da rebelião já tivessem sido lançadas entre os crentes.  Hesitou até que alguns dos companheiros que tinham sido próximos do profeta Muhammad o encorajaram e deram seu apoio.  Os eventos relacionados ao assassinato de Uthman tinham lançado a jovem nação muçulmana em um período que ficou conhecido como o “tempo de tribulação”.  Ali começou e terminou seu califado em tempos de testes e tribulações. Entretanto, permaneceu leal às suas convicções e governou de uma maneira compatível com a criança que aprendeu moral e valores aos pés do profeta Muhammad.
Ali era um homem profundamente religioso. Era devotado ao Islã e se empenhou em sua vida diária e em sua posição como líder para elevar o Alcorão e as tradições autênticas do profeta Muhammad.  A guerra começou entre os muçulmanos e Ali se viu tentando liderar uma nação acossada com rebelião e em luta.  Durante esse tempo da guerra civil, Ali foi ainda mais consciente da grande tarefa que tinha diante de si.  Era responsável pelas pessoas da nação muçulmana.
Nesse ponto deve ser claramente notado que Ali e Uthman eram irmãos no Islã, ambos devotados a Deus, Seu mensageiro Muhammad e à religião do Islã. Ambos governaram a nação muçulmana com corações humildes, austeridade e piedade.  
Ali foi assassinado com uma espada envenenada.  O assassino, que atacou enquanto Ali estava orando na mesquita, deu fim à vida dele.  Abu Bakr, Omar Ibn al Khattab, Uthman Ibn Affan e Ali Ibn Abu Talib eram homens de estatura nobre e alta moral, que governaram com o Alcorão e as lições ensinadas a eles pelo profeta Muhammad.


Footnotes:
[1] Califa - líder da nação muçulmana.

Ali, filho de Abu Talib (parte 1 de 2): Os Primeiros Anos

Descrição: Como o quarto sucessor do Profeta Muhammad abraçou o Islã.
Por Aisha Stacey 



Ali “Ibn” (filho de) Abu Talib era o primo jovem do profeta Muhammad. Essa criança, que admirava muito seu primo mais velho, cresceu e tornou-se um nobre guerreiro para o Islã, um juiz erudito, um exegeta notável do Alcorão e um líder virtuoso da nação muçulmana.
Ali nasceu em Meca por volta do ano 600 EC.  Seu pai era Abu Talib, o tio do profeta Muhammad e seu grande apoiador.  Quando Ali era criança uma grande fome devastou a área ao redor de Meca. Os alimentos eram escassos e muitas famílias não eram capazes de alimentar e vestir seus filhos.  Muhammad, que ainda não era um profeta, ofereceu-se para alimentar e cuidar de seu jovem primo.  Consequentemente, Ali foi educado por Muhammad e sua primeira esposa Khadija.  Ali amava seu primo mais velho e o seguia em todos os lugares, copiando as ações de Muhammad.  À medida que ficou mais velho, Ali também começou a imitar as maneiras nobres de Muhammad.[1]
Quando Ali tinha por volta de 10 anos de idade, Muhammad recebeu a primeira das revelações do Alcorão Sagrado de Deus, Todo Poderoso.  Ali estava com seu primo quando Muhammad, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, revelou à sua família que tinha sido chamado para ser o mensageiro de Deus.  Diz-se que Ali testemunhou Muhammad e Khadija orando a Deus e que perguntou o que Muhammad tinha visto.  Assim que o profeta Muhammad explicou a mensagem do Islã a seu jovem primo, Ali a aceitou como a verdade.  Entretanto, antes que abraçasse o Islã pensou muito sobre qual seria a reação de seu pai.  Na manhã seguinte Ali testemunhou que não havia divindade merecedora de adoração exceto Allah e que Muhammad era Seu mensageiro.  Ali tem a honra de ser a primeira criança a aceitar o Islã.
Alguns sábios do Islã acreditam que Ali podia ter mais que 10 anos quando aceitou o Islã e, portanto, pode ser lido em vários textos que Ali foi o primeiro jovem a abraçar o Islã.  Entretanto, a idade de Ali não é de fundamental importância e o que conta e que era um jovem esperto e brilhante, ansioso para aprender e adorar Deus da maneira correta.  Muitos sábios destacam que Ali foi um dos muitos jovens homens e mulheres ao redor do profeta Muhammad que nunca havia sido iniciado em rituais idólatras dos árabes pré-islâmicos.  Ali nunca se prostrou para nada ou ninguém, exceto Deus.
Ali passou sua infância com Fátima, a filha mais jovem de Muhammad e Khadija. Alguns anos depois, quando a comunidade muçulmana tinha migrado de Meca para a cidade de Medina, Ali foi ao profeta Muhammad propor casamento com Fátima.
Ali, entretanto, estava incomodado com o fato de ser muito pobre e não ter nada de valor para presentear Fátima no noivado.  O profeta Muhammad lembrou a ele que tinha um escudo para vender.  Ali vendeu o escudo para Uthman ibn Affan e estava prestes a correr de volta excitadamente para o profeta quando Uthman o parou e devolveu seu escudo, oferecendo-o como presente de casamento para Ali e Fátima.   Acredita-se que Fátima e Ali estavam no meio da adolescência quando o próprio profeta realizou a cerimônia de casamento dos dois.
O menino que tinha seguido seu primo mais velho como uma sombra, tinha crescido e se tornado um jovem e nobre guerreiro.  Quando Deus revelou o versículo “E admoesta os teus parentes mais próximos,  Ó Muhammad.” (Alcorão 26:214) o profeta Muhammad convidou todos os seus parentes para uma refeição. Depois que tinham comido, dirigiu-se a eles e perguntou quem de sua família se uniria a ele na causa de Deus? Ninguém teve coragem de responder, exceto um menino no início da adolescência.  Ali era o menino e manteve-se firme em face dos risos e escárnio e expressou seu desejo de ajudar o profeta Muhammad da forma que pudesse.  Nos tempos difíceis que se seguiram, Ali se manteve firme e demonstrou repetidamente sua coragem e amor por Deus e Seu mensageiro.
Quando os descrentes de Meca planejaram matar o profeta Muhammad, foi preciso que ele e Abu Bakr deixassem Meca durante a noite.  Enquanto caminhavam na noite do deserto, era o adolescente Ali que dormia na cama de Muhammad, sabendo que a qualquer minuto assassinos poderiam tentar matá-lo.  Ali sobreviveu à noite e nos dias seguintes devolveu os itens valiosos que tinham sido deixados em confiança com o profeta Muhammad aos seus legítimos donos.  O profeta Muhammad incluía seu jovem primo entre os seus companheiros mais valentes, confiáveis e virtuosos.  Logo depois, Ali se juntou ao seu amado primo em Medina.
O profeta Muhammad gostava tanto de seu jovem primo que o chamava por muitos nomes carinhosos e simpáticos.  O nome que Ali mais gostava era Abu Turab (pai da poeira).  Uma vez, quando Ali estava dormindo no pátio da mesquita, suas costas ficaram cobertas de poeira.  O profeta Muhammad aproximou-se dele, puxou-o pelos pés e limpou a poeira de suas costas, rindo e chamando-o de Abu Turab.  O profeta Muhammad também o chamava de Ali Haidara (o leão).  A jovem sombra do profeta Muhammad transformou-se em um guerreiro respeitado para o Islã.



Footnotes:
[1] Baseado no trabalho de Ibn Kathir, Biografias dos Califas Sabiamente Guiados

Uthman Ibn Affan (parte 2 de 2): O Possuidor de Duas Luzes

Descrição: A vida e os trabalhos estimulantes do terceiro líder muçulmano.
Por Aisha Stacey



Uthman Ibn Affan[1]  era um homem tão amado pelo Profeta, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, que era chamado o possuidor de duas luzes.  Uthman foi casado com a filha do profeta Muhammad, Ruqiayah, e quando ela morreu ele se casou com outra filha de Muhammad, Umm Kulthum, possuindo assim duas luzes. 
Uthman Ibn Affan foi nomeado Califa (líder da nação muçulmana) através de um processo de consulta e deliberação cuidadosa.  Em seu leito de morte Omar ibn Al Khattab nomeou um conselho de seis homens para escolher um novo líder.  Era uma época de confusão e caos para os muçulmanos, pequenos desentendimentos estavam se tornando obstáculos.  Algumas pessoas queriam apontar Ali ibn Abu Talib porque era da família do profeta Muhammad, enquanto outros queriam apontar Uthman porque era de uma das grandes tribos de Meca.  Ibn Kathir, o respeitado sábio muçulmano do século 14 sugere que o líder do conselho, Abdu Rahman ibn Awf sabatinou a ambos e então escolheu Uthman.
Abdurrahman perguntou a Ali: “Jura governar pelo glorioso livro de Deus (Alcorão) e a Sunnah (tradições) de Seu mensageiro?”  Ao que ele respondeu: “Espero agir de acordo com meus melhores conhecimentos e capacidade.”  Quando Abdurrahman fez a Uthman a mesma pergunta, ele simplesmente respondeu: “Juro”.  Seria muito simplista sugerir que a decisão foi feita exclusivamente pela resposta a essa pergunta, mas foi parte de um processo de reflexão e deliberação.  Ambos estavam entre os vários que eram eminentemente qualificados para liderar a nação muçulmana.  Uthman era um homem conhecido por ser devoto, generoso e modesto. Talvez sua resposta simples tenha refletido sua personalidade.  Um homem tímido de poucas palavras, mas cujo coração estava cheio de amor a Deus e Seu mensageiro.
Imediatamente após ser eleito, Uthman Ibn Affan dirigiu-se ao povo do púlpito anteriormente usado pelo profeta Muhammad.  Olhou para os muçulmanos e louvou a Deus, enviou bênçãos sobre o profeta Muhammad e relembrou as pessoas que esse mundo estava cheio de ilusão.  Aconselhou as pessoas a abandonar as vidas de luxo e buscar um lugar na outra vida, cheio de felicidade e paz.
“Expõe-lhes o exemplo da vida terrena, que se assemelha à água, que enviamos do céu, a qual se mescla com as plantas da terra, as quais se convertem em feno, que os ventos disseminam. Sabei que Deus prevalece sobre todas as coisas.  Os bens e os filhos são o ornamento da vida terrena.  Mas as boas ações, perduráveis, são mais meritórias e mais esperançosas, aos olhos do teu Senhor.” (Alcorão 18:45-46)
Uthman era um homem devoto que amava e confiava em Deus completamente e, assim, sua primeira ação como líder foi assegurar às pessoas que as guiaria de acordo com o modo do profeta e dos califas Abu Bakr e Omar ibn Al Khattab. Uthman estava completando 70 anos quando se tornou líder dos muçulmanos e por muitos anos estava se abstendo dos prazeres desta vida para buscar proximidade com Deus.  Depois de estabelecer um tom de devoção e preocupação para os muçulmanos que seria a marca registrada de seu reinado, Uthman voltou sua atenção para orientar os governadores e os exércitos muçulmanos.
Para os governadores Uthman expressou seu desejo de que servissem ao povo e nunca explorá-lo.  Enviou companheiros proeminentes do profeta Muhammad como seus representantes pessoais às províncias, para escrutinar a conduta dos funcionários do governo e a condição do povo.  Uthman lembrou os exércitos de seguirem as orientações claras estabelecidas por Omar ibn Al Khattab e pediu a eles que nunca esquecessem que estavam defendendo os crentes.  Conquistas extensas foram feitas durante o reinado de Uthman, incluindo partes da Espanha, Marrocos e Afeganistão.  Uthman também foi o primeiro califa a organizar uma marinha de guerra.  Reorganizou as divisões administrativas do califado muçulmano, expandiu e iniciou muitos projetos públicos.  Talvez a contribuição mais impressionante de Uthman para os muçulmanos tenha sido a compilação do Alcorão.

O Alcorão de Uthman

Após a morte do profeta Muhammad e durante o tempo dos califas, centenas de milhares de não-árabes se converteram ao Islã.  Consequentemente, o Alcorão começou a ser recitado e escrito em vários dialetos e escritas diferentes.  Durante uma viagem um dos companheiros do profeta Muhammad e amigo de Uthman, Hudhaifah, notou que havia muitas recitações diferentes do Alcorão no califado islâmico.  Hudhaifah sugeriu a Uthman que houvesse uma versão oficial escrita no estilo usado na cidade de Medina.
Uthman sabia o Alcorão de cor e tinha profundo conhecimento do contexto e circunstâncias relacionados a cada versículo.  O Alcorão tinha sido compilado durante a época de Abu Bakr e mantido sob a guarda da esposa do profeta, Hafsah.  Uthman tomou posse dos originais e ordenou a alguns dos companheiros mais confiáveis que fizessem cópias cuidadosas.  Então ordenou que todas as outras cópias não oficiais fossem queimadas ou destruídas.  Cinco cópias oficiais foram enviadas para as maiores cidades do califado islâmico.  Cópias originais existem até hoje em Tashkent, Uzbequistão, e no Palácio Topkapi em Istambul, Turquia.

Um fim trágico

Os seis anos finais do reinado de Uthman foram marcados por rebeliões.Alguns dos governadores que tinham sido nomeados durante o reinado de Uthman eram desajeitados e até certo ponto injustos. Dessa forma as sementes da discórdia se espalharam e muitas pessoas começaram a amar os luxos da vida contra os quais Uthman tinha alertado.  Surgiram conspirações e foi difícil para Uthman distinguir o amigo do inimigo.  Estava relutante em derramar sangue de qualquer muçulmano, por mais rebelde que pudesse ser.  Uthman preferiu persuadir com gentileza e generosidade porque sempre se lembrava das palavras do profeta Muhammad.  “Uma vez que a espada seja desembainhada entre meus seguidores, não será embainhada até o Último Dia.”
Os rebeldes convocaram Uthman a renunciar e, de fato, muitos companheiros o aconselharam a fazê-lo.  Uthman, agora um homem idoso com mais de 80 anos, ouviu as palavras de seu amado profeta ecoando em seus ouvidos e se recusou a renunciar de sua posição.  “Talvez Deus venha a vesti-lo com uma túnica Uthman e se as pessoas quiserem tirá-la de você, não a remova por elas.”  Uthman permaneceu fiel à sua aliança, mas depois de um longo certo os rebeldes invadiram sua casa e o assassinaram.  Quando a espada do assassino o atingiu, Uthman estava recitando o seguinte versículo:
“Deus ser-vos-á suficiente contra eles, e Ele é o Oniouvinte, o Sapientíssimo.” (Alcorão 2: 137)
Esse foi o fim trágico de um dos homens mais devotos, gentis e altruístas no Islã.


Footnotes:
[1] Baseado no trabalho do Imame Ibn Kathir. Os Califas Sabiamente Guiados.

Uthman Ibn Affan (parte 1 de 2): Generoso e devoto

Descrição: Como o terceiro sucessor do profeta Muhammad abraçou o Islã.
Por Aisha Stacey


Uthman ibn Affan foi o terceiro dos sucessores do profeta Muhammad.  Era conhecido como o líder dos crentes e governou por aproximadamente 12 anos.  Os primeiros seis anos foram tempos de relativa tranquilidade e paz. Entretanto, os últimos anos de seu reinado foram marcados por conflitos internos e focos de rebeldes tentando provocar estragos em todo o califado. Uthman é lembrado como um homem devoto, gentil e amável, conhecido por sua modéstia e timidez e admirado por sua generosidade.  Governou com justiça imparcial e políticas humanas e amenas, baseadas em sua obediência a Deus e seu amor pelo profeta Muhammad e a nação muçulmana.
Uthman, que Deus esteja satisfeito com ele, nasceu sete anos depois do profeta Muhammad, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, e pertencia ao ramo omíada da tribo coraixita.  Os omíadas eram o clã mais influente dos coraixitas. Eram os mais fortes e ricos e Uthman era sua “criança dourada”, o mais amado, devido às suas boas maneiras e timidez.  Como seu predecessor Omar ibn Al Khattab, Uthman era capaz de ler e escrever.  Essa não era uma habilidade comum na Arábia pré-islâmica e Uthman se tornou um comerciante bem-sucedido e negociante de roupas.  Durante toda sua vida foi conhecido como um homem amável e generoso e mesmo antes de sua conversão ao Islã distribuía dinheiro para ajudar os necessitados.
Foi seu amigo próximo Abu Bakr quem introduziu Uthman ao Islã, que abraçou a nova religião com a idade de trinta e quatro anos.  Foi durante os primeiros anos do Islã, quando os homens de Meca estavam sistematicamente insultando e torturando quaisquer convertidos ao Islã.  Apesar dos insultos Uthman não abriu mão de seu Islã e com o tempo casou-se com a filha do profeta Muhammad, Ruqiayah, fortalecendo assim sua relação com o profeta.
Os insultos e tortura continuaram e a riqueza da família de Uthman e o status na sociedade como negociante não o protegeram.  Foi insultado e torturado até por membros de sua própria família; seu tio algemou suas mãos e pés e o fechou em um quarto escuro.  O mau tratamento contínuo por seus familiares próximos levou Uthman e sua esposa a participar na primeira migração para a Abissínia.  O profeta Muhammad louvou seu caráter paciente e disse: “Depois de Ló, Uthman é o primeiro homem que, com sua esposa, abriu mão do conforto de sua casa por causa de Deus.”  Depois de algum tempo Uthman e Ruqiayah retornaram à Meca para estar com os muçulmanos em luta e seu amado pai e profeta.
Uthman formou uma relação muito próxima com o profeta Muhammad e obteve conhecimento intrincado sobre a religião do Islã.  Narrou 146 tradições diretamente do profeta e foi uma das pouquíssimas pessoas que foram capazes de registrar o Alcorão por escrito.  Uthman também se tornou um ponto de referência para os que tentavam aprender os rituais de adoração.  Compreendia e era capaz de instruir os demais nos rituais de ablução, oração e outras obrigações islâmicas.  Uthman também participou na migração para Medina e lá auxiliou o profeta Muhammad no estabelecimento da nação muçulmana.  O profeta Muhammad até se referia a ele como seu assistente.
Em Medina a água era escassa e o controle dos poços era rigorosamente mantido por vários homens.  Como era um comerciante e negociador habilidoso, Uthman se empenhou em tentar comprar um poço para o uso dos muçulmanos. Negociou um preço pela metade de um poço; teria controle um dia e o outro proprietário no dia seguinte.  Entretanto, Uthman dava sua água aos muçulmanos gratuitamente e, então, ninguém queria pagar pela água nos dias alternados.  O proprietário original do poço não teve alternativa a não ser vender sua metade do poço para Uthman que, entretanto, pagou um preço justo por ele.  Uthman continuou permitindo que a água fosse usada livremente por todos e nunca lembrava o povo de sua caridade.  Era humilde e modesto.
Uthman distribuiu livremente de sua fortuna para agradar a Deus e Seu mensageiro Muhammad.  Relatos históricos islâmicos mencionam que toda sexta-feira Uthman comprava escravos com o propósito de libertá-los e que, embora fosse rico, geralmente era visto sem servos por causa desse hábito.  Quando o profeta Muhammad e as tropas muçulmanas estavam indo combater os bizantinos em Tabuk, conclamou os mais ricos a contribuírem de sua fortuna e bens para apoiar e equipar os soldados.  Uthman apresentou 200 camelos selados e 200 onças de ouro.  Também deu 1.000 dinares.  O profeta Muhammad continuou pedindo doações na esperança de inspirar outros a doar tão livremente quanto Uthman.  Entretanto, foi Uthman quem ultrapassou todos eles e deu um total de 900 camelos equipados.[1]
O retrato que fizemos de Uthman é o de um homem generoso, despretensioso e amável.  Era conhecido por sua humildade, modéstia e devoção.  Uthman frequentemente passava as noites em oração e era conhecido por jejuar com frequência, às vezes em dias alternados.  Apesar de sua fortuna, vivia de forma simples e geralmente dormia envolvido em um cobertor na areia da mesquita.  Uthman foi designado como o terceiro líder dos muçulmanos após o profeta Muhammad por um conselho de seis homens.  Continuou o governo justo e humano do profeta Muhammad, Abu Bakr e Omar.  Cuidou dos muçulmanos e expandiu o califado islâmico até o Marrocos, Afeganistão e Azerbaijão.  Por seis anos seu reino foi de paz e calmaria, mas os ventos da mudança estavam soprando sobre o império.
Uthman ibn Affan, como seus predecessores, era um homem do povo.  Era modesto, tímido e humilde, mas ainda assim seu reinado foi marcado por insurreições e rebeliões.  Deus havia escolhido Uthman para ser o terceiro líder, mas o povo da dissensão planejou removê-lo de sua nobre posição.  O profeta Muhammad havia profetizado que Uthman seria colocado em uma situação muito difícil quando disse: “Talvez Deus venha a vesti-lo com uma túnica Uthman e se as pessoas quiserem tirá-la de você, não a remova por elas.”  Uthman não removeu sua túnica, seu amor por Deus e seu mensageiro o manteve forte e humilde em face da velhice e extremas dificuldades.


Footnotes:
[1] The Sealed Nectar.  Safi Ur Rahman Al Mubarakpuri.

Omar, o Critério (parte 3 de 3): O comandante dos crentes

Descrição: Omar era um modelo de justiça, generosidade e virtude.
Por Aisha Stacey 



Omar Ibn Al Khattab foi o segundo califa da Ummah (nação) muçulmana e o primeiro governante muçulmano a ser chamado comandante dos crentes.  Depois da morte do profeta Muhammad, seu amigo mais próximo Abu Bakr tornou-se seu sucessor e liderou os muçulmanos por aproximadamente dois anos.  Quando Abu Bakr sentiu que sua própria morte se aproximava, reuniu seus amigos e conselheiros mais próximos e informou-os de que suas alianças com ele estava terminada.  Abu Bakr esperava que esses homens escolhessem seu sucessor entre o grupo.  Entretanto, depois de muita discussão os companheiros de Abu Bakr retornaram para que ele escolhesse, porque confiavam em sua escolha sem qualquer questionamento.  Abu Bakr escolheu Omar.
Alguns dos homens em torno de Abu Bakr expressaram preocupação com o fato de Omar, conhecido por ser um homem muito rígido e ríspido, seria muito duro com o povo.  Abu Bakr respondeu dizendo que considerava Omar o melhor entre eles. Apesar dessas reservas iniciais entre alguns homens de Medina, Omar foi nomeado como segundo califa dos muçulmanos.  Começou seu reinado dirigindo-se ao povo e imediatamente explicou suas expectativas a respeito de si próprio.  Omar sabia que o povo estava ciente de sua reputação de rigidez e abordou essa questão.
Disse: "Ó povo! Sei que fui nomeado para governar nossos assuntos, então reconheçam que minha rigidez está agora enfraquecida, mas continuarei sendo severo e rígido em relação aos que oprimem e transgridem e colocarei seus rostos no chão[1].  Saibam também que colocarei meu próprio rosto no chão para defender as pessoas virtuosas."
Omar prosseguiu explicando ao povo que não pegaria nada do que suas terras produzissem ou dos espólios de guerra, exceto o que Deus ordenasse e que gastaria dinheiro apenas de forma que agradasse a Deus. Omar estava totalmente ciente da importância de justiça financeira e que seria responsabilizado por cada centavo que pertencesse à Ummah muçulmana.  Omar também informou ao povo que aumentaria seus salários e provisões e guardaria suas fronteiras.
A jovem nação muçulmana que o profeta Muhammad, que Deus o exalte, e seus companheiros tinham trabalhado muito duro para estabelecer era uma Ummah como nenhuma outra.  Benefícios eram pagos a cada membro da Ummah do tesouro muçulmano; não era necessário ser um funcionário do governo, a fortuna da nação em constante expansão era compartilhada igualmente.  Omar não instituiu isso e estava meramente seguindo o que já havia sido estabelecido por seus predecessores, mas prometeu aumentar os pagamentos.
Omar também prometeu não enviar exércitos muçulmanos "para a destruição", significando que não despacharia exércitos a menos que os riscos fossem avaliados e considerados aceitáveis. Prometeu não manter os soldados longe de suas famílias por um período longo de tempo e garantiu aos homens que enquanto estivessem longe combatendo pela Ummah muçulmana e se não retornassem, ele, o califa, seria o pai de seus filhos e responsável por suas esposas. Omar acreditava que o papel do líder era proteger o povo.
Esse conceito parece muito incomum hoje em dia quando vemos presidentes e primeiros-ministros cercados por guarda-costas e dispostos a passar por cima de qualquer um para protegerem a si mesmos e seu poder.  Omar Ibn al Khattab, embora fosse o líder de um império, nunca achou necessário ter um guarda-costas.  Caminhava pelas ruas de Medina como um cidadão comum, mesmo à noite.  De fato, era durante as noites que circulava pelas ruas obtendo informações sobre aqueles sob sua proteção e distribuindo caridade anonimamente.
Um dos anos do reinado de Omar ficou conhecido como Ano das Cinzas. Esse ano foi o maior teste para a Ummah muçulmana. Foi uma época de seca e fome, quando o vento era tão quente que queimava a pele como se fosse cinza quente. Carne, manteiga e leite não estavam disponíveis e as pessoas sobreviviam com pouco mais que pão seco às vezes imerso em óleo. Omar fez um voto de que não comeria ou beberia nada que não estivesse disponível para o povo. Mesmo quando os alimentos voltaram a ficar disponíveis nos mercados, Omar se recusou a comprá-los por causa dos preços inflacionados. Costumavam ouvi-lo dizer: "Como posso me preocupar e compreender meus próprios súditos se não estiver passando pelos mesmos testes pelos quais eles passam?"
Mais de mil e quatrocentos anos de seu reinado, Omar continua sendo lembrado como um homem justo.  Partindo dos princípios de justiça, misericórdia e compaixão inerentes ao Islã, Omar tratava todos sob seus cuidados igualmente, ricos ou pobres, negros ou brancos, poderosos ou fracos.  Temia constantemente que Deus o questionasse por suas ações. Preocupava-se com a existência de pessoas doentes ou pobres entre os crentes que não tivessem sido tratadas corretamente.  Omar ibn Al Khattab nunca nomeou juízes ou governadores que expressaram desejo pelo cargo, mas escolheu sabiamente entre os membros mais virtuosos da Ummah.
Omar se considerava um muçulmano comum, mas a história registrou que era tudo, menos comum. Omar era forte, física e espiritualmente, generoso, nobre e viveu uma vida de humildade. Omar seguiu os passos de seu amado profeta Muhammad, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, seguindo seu exemplo e mantendo suas tradições. Omar estava totalmente focado em agradar a Deus; temia que a punição de Deus, mas esperava ir para o paraíso. Omar foi capaz de distinguir a verdade da falsidade, sentiu dor quando a Ummah ou qualquer membro estava sendo ferido e sentiu alegria quando aqueles sob sua responsabilidade estavam contentes e satisfeitos adorando seu Senhor.  Omar foi um dos quatro califas sabiamente guiados.  Mesmo hoje ele continua a ser um modelo de força, justiça, amor e misericórdia.



Footnotes:
[1] Essa era uma expressão usada pelos árabes da época para denotar resposta dura, que não deixa dúvida que a opressão a outros e a transgressão de seus direitos não serão toleradas.

Omar, o Critério (parte 2 de 3): Um homem como uma Nação

Descrição: O amor de Omar por seus irmãos e irmãs no Islã
Por Aisha Stacey





Omar ibn Al Khattab era um homem forte e assertivo com seu coração cheio de ódio pelo Islã.  As súplicas do profeta Muhammad, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, e a beleza sublime do Alcorão mudaram sua mente, seu coração e sua vida.  Quando Omar aceito ou o Islã tornou-se um homem devotado à Ummah de Muhammad e, como muçulmano, estava satisfeito quando a Ummah estava satisfeita e insatisfeito quando a Ummah estava insatisfeita.
Ummah é uma palavra árabe que pode ser traduzida superficialmente como nação, mas como muitas outras palavras árabes, não é fácil de traduzir para o português.  A raiz da palavra árabe Ummah é amma, que significa ir ou ir para ver.  A palavra imama significa liderar, por exemplo, aquele que lidera a oração é o imame.  Também deriva dessa raiz a palavra umm, que significa mãe, fonte ou origem.
Nos países ocidentais a palavra nação geralmente define a noção de estado, cujos membros vivem em um conjunto de fronteiras pré-definidas determinadas por diferenças religiosas, raciais ou étnicas. Essa não é a definição de Ummah. Ummah significa uma comunidade de crentes unidos com um propósito - adorar Deus.  Juntos são fortes e divididos são fracos.  Cada membro está unido com todos os outros de forma espiritual que pode até ter manifestações físicas.  Quando uma parte da Ummah sente dor, toda a Ummah sofre.[1]
“E sabei que esta vossa comunidade é única, e que Eu sou o vosso Senhor. Temei-Me, pois!” (Alcorão 23:52)
Para ilustrar isso podemos olhar para as imagens vistas na TV, com os muçulmanos denunciando os abusos e maus tratos sofridos por seus irmãos em países distantes.  Na Ummah de Muhammad quando um membro sofre, a dor nos corações dos outros membros é real.  Os muçulmanos se posicionam pelo que é moralmente correto e a desumanidade não tem lugar no Islã. Omar ibn Al Khattab reconheceu essa qualidade única de imediato e se declarou um homem da Ummah.
Quando Omar ibn Al Khattab aceitou o Islã queria ser parte de sua comunidade e proclamar sua filiação a essa nação única.  Omar queria se unir à Ummah em sua felicidade e em sua dor. Na época de sua conversão os membros mais fracos da Ummah sofriam abuso e opressão sistemáticos, frequentemente provocados pelo próprio Omar, mas seu coração agora sentia sua dor e queria experimentá-la. Omar não queria que o Islã passasse desapercebido; imediatamente informou aos inimigos do Islã que era muçulmano. 
No início os homens de Meca que não tinham abraçado o Islã ficaram chocados e não reagiram à conversão de Omar, mas quando a notícia se espalhou, se reuniram na Casa de Deus e atacaram Omar. Omar, o lutador forte e musculoso, sentou no meio de seus atacantes e eles o espancaram. Omar se recuperou do espancamento e, por causa dele, o Islã se fortaleceu.  O coração de Omar estava cheio de amor por seus irmãos e irmãs no Islã. O Profeta Muhammad disse: "Se houvesse um profeta depois de mim, ele seria Omar ibn al Khattab."

Mais que força

Abu Bakr As Siddiq e Omar eram os dois companheiros mais próximos do profeta Muhammad. Relata-se que Ali Ibn Abu Talib disse que o profeta Muhammad saía de manhã com Abu Bakr e Omar e retornava à noite com Abu Bakr e Omar. O próprio profeta chamava Abu Bakr e Omar de seus olhos e ouvidos e dizia que eram seus conselheiros entre os habitantes da terra.[2] Omar ficou ao lado do profeta Muhammad em todos os testes e tribulações que a Ummah muçulmana enfrentou.
Quando os muçulmanos de Meca migraram para a cidade de Medina, todos partiram em uma migração secreta e bem planejada, exceto Omar. Foi o único muçulmano a migrar abertamente. De fato, ele proclamou que estava partindo e convidou qualquer homem que se considerasse forte o suficiente, a desafiá-lo. Omar pendurou a espada em seu pescoço e cavalgou pelas ruas de Meca com sua cabeça erguida e seu coração, que não estava mais cheio de ódio, com um amor profundo por Deus, Seu profeta Muhammad e seus irmãos crentes. Como o profeta Muhammad criou sua Ummah, Omar ficou do seu lado.
Embora lembrado por sua força, Omar também era conhecido por ser um homem virtuoso e generoso.  Passava noites em adoração, frequentemente acordando sua família na última parte da noite para unir-se a ele em suas devoções.  Era um crente convicto, confiante na promessa de Deus do paraíso e prontamente gastou de sua fortuna em nome de Deus para benefício dos crentes.  Um dos companheiros do profeta narra[3] que Omar uma vez distribuiu 22.000 dirhams para os necessitados e tinha o hábito de distribuir sacos de açúcar.  Quando perguntaram a Omar por que distribuía o açúcar, ele disse: "Porque gosto de açúcar e Deus disse no Alcorão:
"Jamais alcançareis a virtude, até que façais caridade com aquilo que mais apreciardes. E sabei que, de toda caridade que fazeis, Deus bem o sabe." (Alcorão 3:92)
Omar era um dos dez homens aos quais o profeta Muhammad deu as boas novas de que seriam admitidos no paraíso.[4]  Entretanto, isso não o impediu de trabalhar incessantemente toda a sua vida para agradar a Deus.  Era um homem de sabedoria, um homem conhecido por sua generosidade e devoção incansável na adoração a Deus e, acima de tudo talvez, era devotado à Ummah de Muhammad. O profeta Muhammad aconselhou a todos nós quando disse: "Um homem não é um verdadeiro crente até que ame para seu irmão o que ama para si mesmo"[5].  Omar queria o paraíso, mas também o queria para todo homem, mulher ou criança que tinha acreditado que não havia divindade exceto Deus e Muhammad é Seu mensageiro. Esse era Omar, que distinguia verdade de falsidade; era um homem da Ummah.


Footnotes:
[1] Saheeh Al-Bukhari, Saheeh Muslim.
[2] At Tirmidhi.
[3]  Das Histórias dos Califas Sabiamente Guiados, do Imam Ibn Kathir.
[4] At Tirmidhi.
[5] Saheeh Al-Bukhari, Saheeh Muslim, & outros.

Omar, o Critério (parte 1 de 3):"Fortaleça o Islã com Omar"


Descrição: Como o segundo sucessor do profeta Muhammad abraçou o Islã.
Por Aisha Stacey



Quando os inimigos do Islã ouviam o nome de Omar, seus joelhos tremiam.  Quando Satanás via Omar caminhando na rua, mudava de direção.  Até os amigos de Omar às vezes achavam sua presença intimidante e também temiam sua ira.  Entretanto, esse home de força e poder chorava facilmente e tinha um coração generoso e compassivo.  Omar era humilde sem ser fraco.  Combinava dois traços opostos de caráter e isso fez dele único entre os homens ao redor do profeta Muhammad.  O caminho de Omar para a verdade começou com um ódio veemente de Muhammad e da religião do Islã, mas aquele ódio logo se transformou em amor profundo.  Omar ibn Al Khattab fortaleceu o Islã.
Pertencia à uma família de classe média, nem rica e nem pobre, do clã Adi, parte da tribo dos coraixitas.  Teve uma infância dura. Seu pai era conhecido por ser um homem severo que tinha disciplinado seu filho à exaustão, batendo nele quando considerava necessário.  Apesar disso acredita-se que Omar sabia ler, uma habilidade rara na Arábia pré-islâmica.  Nascido aproximadamente 11 anos depois do profeta Muhammad, Omar era um garoto de pele relativamente clara que se transformou um homem alto, bem constituído e musculoso conhecido por seu comportamento violento e habilidades para a luta.
Omar começou a trabalhar como pastor para seu pai e tios e recebia um pequeno estipêndio, geralmente um punhado de tâmaras por um dia inteiro de trabalho.  Complementava seus rendimentos participando de competições de luta, mas na vida adulta tornou-se um negociante bem-sucedido e homem de negócios respeitado.  Omar era conhecido como um homem forte.  Sua postura e conduta denotavam força e sua voz era alta e de comando.  Quando os ensinamentos de Muhammad se tornaram um problema para os homens de Meca, Omar pronunciou seu ódio pelo Islã abertamente e participou do abuso e tortura de muitos dos convertidos mais fracos ao Islã.

Os dois Omars

Embora não conhecido por seu nome de Omar, havia outro homem forte e determinado que se opunha ao Islã.  Era o homem originalmente conhecido como Abu Hakim (o pai da sabedoria), mas a história nos lembra dele como Abu Jahl (o pai da ignorância), o inimigo declarado do Islã.  O profeta Muhammad, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, deu a ele o nome de Abu Jahl para denotar sua total ignorância em não reconhecer a verdade do Islã.  Relatos tradicionais revelam que o profeta Muhammad em uma ocasião levantou as mãos em súplica e implorou a Deus que fortalecesse o Islã com um dos dois Omars que mais amasse.  Para os inimigos do Islã e os companheiros do profeta Muhammad, Omar ibn al Khattab abraçar o Islã era uma noção impensável.
O ódio de Omar pelo Islã era tão forte que se ofereceu como voluntário para matar o profeta Muhammad.  Sem um segundo de hesitação desceu as ruas de Meca com a intenção de desembainhar sua espada e acabar com a vida do profeta de Deus.  Um dos homens de Meca, que secretamente era muçulmano, viu o olhar no rosto de Omar e imediatamente soube que seu amado profeta estava em perigo.  Sem temer por si mesmo, aproximou-se de Omar e perguntou onde estava indo com tanta pressa.  Oma respondeu que ia "para o homem que havia desunido nosso povo, amaldiçoado nossos deuses e nos feito de tolos" e disse "vou matá-lo".
O jovem muçulmano chamado Nu'aim sentiu o terror em seu coração e tentou começar uma discussão com Omar para distraí-lo, mas Omar estava determinado com sua missão e seguiu em frente.  Nu'aim relutantemente falou as palavras que levou Omar para o Islã.  Disse: "Por que não cuida de sua própria casa primeiro?"  Omar parou e perguntou o que ele queria dizer com essas palavras.  A amada irmã de Omar e seu marido tinham abraçado o Islã secretamente e Nu'aim revelou o segredo para salvar a vida do profeta Muhammad.
Omar voltou imediatamente e caminhou com determinação na direção da casa de sua irmã.  Enquanto se aproximava, pode ouvir o som do Alcorão sendo recitado.  Omar bateu na porta.  Os moradores esconderam suas cópias do Alcorão, mas Omar entrou e exigiu saber que som "cantarolante" era aquele que tinha ouvido.  A irmã de Omar respondeu que não era nada, apenas o som deles conversando, mas Omar conhecia o som do Alcorão e perguntou ameaçadoramente: "Você se tornou muçulmana?"  O cunhado de Omar respondeu afirmativamente e nessa hora Omar caiu sobre ele, derrubando-o no chão.  A irmã de Omar tentou defender o marido e, na confusão, Omar atingiu seu rosto, tirando sangue.

O Alcorão entra em seu coração

A irmã de Omar parecia ter a força que fazia seu irmão ser tão famoso. Levantou-se e enfrentou seu irmão enfurecido dizendo: "Inimigo de Deus!  Bateu em mim apenas porque acredito em Deus.  Goste ou não, testemunho que não há divindade exceto Allah e que Muhammad é Seu servo e mensageiro.   Faça o que quiser!"  Omar viu o sangue correndo do rosto de sua irmã, suas palavras ecoaram em seus ouvidos e ele se levantou.  Omar exigiu que as palavras do Alcorão que tinha ouvido quando se aproximava da casa fossem recitadas para ele.
"Não te revelamos (ó Muhammad) o Alcorão para que te mortifiques. Mas sim como exortação aos tementes. É a revelação de Quem criou a terra e os altos céus,   Do Clemente, Que assumiu o Trono. Seu é tudo o que existe nos céus, o que há na terra, o que há entre ambos, bem como o que existe sob a terra.  Não é necessário que o homem levante a voz, porque Ele conhece o que é secreto e ainda o mais oculto.  Deus! Não há mais divindade além d’Ele!  Seus são os mais sublimes atributos." (Alcorão 20:2-8)
Os olhos de Omar se encheram de lágrimas.  "É contra isso que estamos lutando?" perguntou.  "Aquele que falou essas palavras precisa ser adorado." Omar deixou a casa da irmã e correu para Muhammad.  Aqueles com o profeta Muhammad estavam com medo, mas deixaram Omar entrar e o seguraram até que estivesse na presença de Muhammad.  O profeta Muhammad o segurou e perguntou: "Por que veio até aqui, filho de Khattab?"
Omar olhou para o profeta Muhammad com humildade e alegria e disse: "Ó mensageiro de Deus, vim para dizer que acredito em Deus e Seu mensageiro."  O profeta Muhammad foi tomado pela alegria e clamou que Deus era Grande!  Dentro de dias Omar liderou uma procissão de muçulmanos para a casa de Deus onde oraram abertamente.  Foi nessa ocasião que o profeta Muhammad deu a ele o apelido de Al Faruq - o critério[1].  Isso denota que ele é capaz de distinguir verdade de falsidade.  O Islã foi fortalecido com Omar e seu ódio se transformou em um amor sem limites.  Sua vida e sua morte passaram agora a ser em nome de Deus e Seu mensageiro.


Footnotes:
[1] Tirado dos trabalhos históricos de At Tabari, & The Life and times of Omar Ibn Al Khattab do Sheikh Ali Muhammad Salladi.