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sábado, 23 de abril de 2016

Salman o Persa, Zoroastriano - Pérsia (parte 2 de 2): Do Cristianismo ao Islã

Descrição: A longa busca finalmente termina com Salman encontrando o profeta prometido e, ao conquistar sua liberdade, torna-se um dos seus companheiros mais próximos.
Por Salman, o Persa



O homem morreu e Salman ficou em Amuria.  Um dia, “alguns mercadores da tribo de Kalb[1] passaram por mim”, disse Salman. “Disse-lhes: ‘Levem-me para a Arábia e darei a vocês minhas vacas e a única ovelha que tenho.’” Eles disseram: “Sim.” Salman deu-lhes o que tinha oferecido e o levaram com eles.  Quando chegaram a Wadi al-Qura [próximo a Medina], venderam-no como escravo a um judeu.  Salman ficou com o judeu e viu as tamareiras [que seus companheiros anteriores tinham descrito].
“Queria que fosse o mesmo lugar descrito por meu companheiro.”
Um dia, um homem que era primo do amo de Salman da tribo judaica de Bani Quraidha em Medina veio para uma visita.  Ele comprou Salman de seu amo judeu.
“Levou-me com ele para Medina. Por Deus! Quando a vi, sabia que era o lugar que meu companheiro descreveu.”
Então, Deus enviou[2] seu mensageiro [ou seja, Muhammad, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele].  Ficou em Meca pelo mesmo tempo que ele.[3] Não ouvi nada a respeito dele porque estava muito ocupado com o trabalho como servo e então ele migrou para Medina.
Um dia, estava em uma tamareira no topo de um de seus cachos de tâmara fazendo um trabalho para meu amo.  Um primo veio, ficou na frente dele [seu amo estava sentado] e disse: “Que pena de Bani Qilah [pessoas da tribo de Qilah]. Estão reunidos em Qiba[4] ao redor de um homem que veio hoje de Meca reivindicando ser um profeta!”
Tremi tão fortemente quando o ouvi que tive medo de cair sobre meu amo.  Desci e perguntei: ‘O que está dizendo!?  O que está dizendo!?’
Meu amo ficou zangado e me esmurrou com força, dizendo: “O que você tem a ver com esse assunto? Vá e cuide da sua vida.”
Eu disse: “Nada! Só queria ter certeza do que ele estava falando.”
Naquela noite, fui ver o mensageiro de Deus enquanto ele estava em Qiba.  Levei algo comigo do que tinha economizado.  Entrei e disse: “Disseram-me que é um homem virtuoso e que em sua companhia estão estrangeiros em necessidade. Queria oferecer-lhe algo que economizei como caridade. Acho que merece mais do que qualquer outra pessoa.”
Ofereci a ele; ele disse a seus companheiros: “Comam”, mas ele mesmo manteve sua mão afastada [ou seja, não comeu].  Disse a mim mesmo: “Esse é um [ou seja, um dos sinais de sua missão profética]”
Em seguida a esse encontro com o profeta, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, Salman saiu para preparar outro teste!  Dessa vez trouxe um presente para o profeta em Medina.
“Vi que não comeu do que foi dado como caridade. Então, aqui está um presente com o qual desejo honrá-lo.” O profeta comeu e ordenou a seus companheiros que fizessem o mesmo, o que eles fizeram.  Disse a mim mesmo: “Agora são dois [ou seja, dois dos sinais da missão profética]”
No terceiro encontro Salman veio até Baqi-ul-Gharqad [um cemitério em Medina] onde o profeta, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, participava do funeral de um de seus companheiros.  Salman disse:
“Eu o saudei [com a saudação do Islã: ‘Que a paz esteja sobre vós’] e então tentei ver o selo dos profetas em suas costas, que tinha sido descrito por meu companheiro. Quando viu minha atitude, sabia que eu estava tentando confirmar algo descrito a mim. Tirou a túnica de suas costas e vi o selo. Eu o reconheci. Prostrei-me sobre o selo, beijando-o e chorando. O mensageiro de Deus, que a misericórdia e bênção de Deus estejam sobre ele, me disse para conversar com ele. Contei-lhe minha história como fiz com você, Ibn Abas [lembre que Salman está contando sua história para Ibn Abas]. Ele [o profeta] gostou tanto, que queria que eu a contasse a seus companheiros.”
Ele ainda era um servo, propriedade de seu amo.  O profeta disse a ele: “Faça um contrato [com seu amo] por sua liberdade Salman.” Salman obedeceu e fez um contrato [com seu amo] por sua liberdade.  Chegou a um acordo com seu amo no qual pagaria quarenta onças de ouro e plantaria trezentas novas tamareiras.  O profeta então disse a seus companheiros: “Ajudem seu irmão.”
Eles o ajudaram com as tamareiras e juntaram para ele a quantia especificada.  O profeta ordenou a Salman que cavasse buracos adequados para plantar as mudas e plantou cada uma delas com suas próprias mãos.  Salman disse: “Por aquele em Cujas mãos está minha alma [ou seja, Deus], nenhuma árvore morreu.”
Salman deu as árvores para seu amo.  O profeta deu a Salman um pedaço de ouro que era do tamanho do ovo de uma galinha e disse: “Tome isso Salman e pague [ou seja, seu amo] o que deve.”
Salman disse: “Quanto é isso em relação ao que devo?”
O profeta disse: “Pegue! Deus tornará equivalente ao que deve.” [5]
Peguei e pesei uma parte e era quarenta onças.  Salman deu o ouro para seu amo.  Cumpriu o acordo e foi libertado.
A partir daquele momento, Salman tornou-se um dos companheiros mais próximos do profeta.

A Busca pela Verdade

Um dos grandes companheiros do profeta, com o nome de Abu Hurairah, relatou:
“Estávamos sentados na companhia do mensageiro de Deus quando a surata al-Jumuah (surata 62) foi revelada. Ele recitou essas palavras:
“Ele foi Quem escolheu, entre os iletrados, um Mensageiro da sua estirpe, para ditar-lhes os Seus versículos, consagrá-los e ensinar-lhes o Livro e a sabedoria, porque antes estavam em evidente erro.”   (Alcorão 62:3)
Uma pessoa perguntou: “Ó mensageiro de Deus!  Quem são os que estavam em evidente erro?”
O mensageiro de Deus não respondeu.  Salman, o persa estava entre nós.  O mensageiro de Deus colocou sua mão em Salman e disse: “Por Aquele em Cujas mãos está minha alma, mesmo que a fé estivesse próxima às Plêiades (as sete estrelas) homens como esse [ou seja, do povo de Salman] certamente a alcançariam.” (At-Tirmidhi)
Muitos nesse mundo são como Salman, buscando pela verdade sobre o Verdadeiro e Único Deus.  Essa história de Salman é semelhante às histórias de pessoas em nossa própria época.  A busca de algumas pessoas as leva de uma igreja a outra, da igreja para o Budismo ou passividade, do Judaísmo para a “neutralidade”, de religião a meditações e abuso mental.  São os que mudam de uma ideia para outra, mas não nem pensam em saber algo sobre o Islã!  Quando encontraram alguns muçulmanos, entretanto, abriram suas mentes.  A história de Salman é a de uma longa busca.  Você pode encurtar sua busca beneficiando-se da dele.



Footnotes:
[1] Uma tribo árabe.
[2] Salman chegou em Medina antes que Muhammad, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, fosse comissionado como profeta.
[3] Treze anos após ter recebido a revelação de Deus.
[4] As cercanias de Medina.
[5] Um milagre de Deus.

Salman, o Persa, Zoroastriano - Pérsia (parte 1 de 2): Do Zoroastrismo ao Cristianismo



Descrição: Um dos maiores entre os companheiros, Salman, o persa, antes zoroastriano, narra a história de sua busca pela verdadeira religião de Deus.  Parte 1: Do Zoroastrismo ao Cristianismo.
Por Salman, o Persa 

O abençoado companheiro do profeta Muhammad, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, Salman al-Farisi narra[1] sua jornada ao Islã:
“Era um persa do povo de Isfahan[2] de uma cidade conhecida como Jayi. Meu pai era o chefe da cidade. Para ele, eu era a criatura mais amada de Deus. Seu amor por mim chegou ao ponto de ele me confiar a supervisão do fogo[3] que acendia. Ele não o deixava morrer.
Meu pai era dono de uma grande área de terra fértil.  Um dia, enquanto estava ocupado com sua construção, ele me disse para ir até sua terra desempenhar algumas tarefas.  No caminho para sua terra, passei por uma igreja cristã.  Ouvi o som das pessoas orando lá dentro.  Não sabia como as pessoas viviam, porque meu pai me mantinha confinado à sua casa!  Então, quando encontrei aquelas pessoas [na igreja] e ouvi suas vozes, entrei para observar o que estavam fazendo.”
Quando as vi, gostei de suas orações e fiquei interessado em sua religião.  Disse [para mim mesmo]: “Por Deus, essa religião é melhor do que a nossa.” Por Deus, não os deixei até o por do sol.  Não retornei para a terra de meu pai.
Perguntei [às pessoas da igreja]: “Onde foi a origem dessa religião?”
“Disseram: ‘Em al-Shaam.’[4]
Retornei ao meu pai que estava preocupado e enviado alguém atrás de mim.  Na minha chegada, ele disse: “Ó filho! Onde estava? Não lhe confiei uma tarefa?”
Disse: “Meu pai, encontrei algumas pessoas orando na igreja e gostei da religião delas. Por Deus, fiquei com eles até o por do sol.”
Meu pai disse: “Meu filho! Não existe deus naquela religião; a sua religião e de seus antepassados é melhor”.  ”
“Não, por Deus, ela é melhor que nossa religião.”
Ele ameaçou-me, acorrentou-me pelos pés e manteve-me confinado em sua casa.  Enviei uma mensagem para os cristãos pedindo que me informassem da chegada de qualquer caravana comercial cristã vindo de Al-Shaam.  Uma caravana comercial chegou e me informaram e eu, então, disse [aos cristãos] que me avisassem quando as pessoas da caravana concluíssem seus negócios e se preparassem para retornar ao seu país.  Fui de fato informado quando as pessoas de Al-Shaam terminaram seus negócios e estavam prestes a voltar para seu país. Então eles soltaram as correntes dos meus pés e acompanhei a caravana até que chegamos a Al-Shaam.
Na chegada perguntei: “Quem é o melhor entre as pessoas dessa [sua] religião?”
Eles disseram: “O bispo. Ele está na igreja.”
Fui até ele e disse: “Gosto dessa religião e gostaria muito de ficar com o senhor e servi-lo em sua igreja, para poder aprender e orar com o senhor.”
Ele disse: “Pode entrar e ficar comigo” e eu me juntei a ele.
Depois de algum tempo Salman descobriu algo sobre o bispo.  Era um homem mau que ordenava e motivava seu povo a pagar caridade para que pudesse ficar com ela.  Não a dava aos pobres.  Tinha acumulado sete jarras de ouro e prata!  Salman continuou:
Eu o desprezei por causa de suas ações.
Ele [o bispo] morreu.  Os cristãos se reuniram para enterrá-lo.  Eu os informei que ele era um homem mau que ordenava e motivava as pessoas a darem caridade para que pudesse ficar com ela e que não tinha dado nada aos pobres.  Disseram: “Como você sabe disso?”
Respondi: “Posso mostrar-lhes o tesouro dele.”
Disseram: “Mostre-nos!”
Mostrei a eles o lugar [onde ele o guardava] e recuperaram sete jarros com ouro e prata.  Quando viram tudo aquilo, disseram: “Por Deus, nunca o enterraremos.” Então o crucificaram e apedrejaram.[5]
Substituíram seu bispo.  Nunca vi ninguém [dentre eles] que orasse melhor que ele [o novo bispo]; nem um homem mais desinteressado dessa vida mundana e apegado à Outra Vida, nem uma pessoa mais comprometida a trabalhar dia e noite.  Eu o amava mais que a qualquer pessoa que tinha amado antes.
Fiquei com ele por algum tempo antes de sua morte.  Quando sua morte se aproximou eu lhe disse: “Ó senhor, fiquei contigo e te amei mais que qualquer coisa que amei antes. Agora do Decreto de Deus [ou seja, morte] chegou. O que me recomenda e o que me ordena?”
O bispo disse: “Por Deus! As pessoas estão perdidas; alteraram e mudaram [a religião] que praticavam.  Não conheço ninguém que continue a se apegar a religião que pratico, exceto um homem em al-Musil[6]. Então, uma-se a ele [e me deu o nome]”
Quando o homem morreu, Salman foi para al-Musil e encontrou a pessoa que ele recomendou...
Disse a ele: “Tal pessoa na hora de sua morte recomendou que me juntasse a você. Ele me disse que você pratica a mesma religião que ele.” Fiquei com ele e descobri que era o melhor homem em relação à religião de seu companheiro.
Logo ele morreu.  Quando a morte se aproximou dele, Salman pediu [como fez anteriormente com seu primeiro companheiro] que recomendasse outra pessoa com a mesma religião.
O homem disse: “Por Deus! Não conheço ninguém da mesma religião nossa exceto um homem em Nasibin[7] e seu nome é tal e tal. Vá e una-se a ele.”
Depois de sua morte, viajei para o homem de Nasibin.” Salman encontrou o homem e ficou com ele por um tempo. Aconteceram os mesmos incidentes. A morte se aproximou e antes que ele morresse, Salman foi a ele e pediu seu conselho sobre para onde ir e para quem. O homem recomendou que Salman se juntasse a outro homem em Amuria[8], que também era da mesma religião.
Salman foi para Amuria depois da morte de seu companheiro.  Encontrou sua nova referência e se juntou a ele em sua religião.  Salman [naquela época] trabalhava e “ganhou algumas vacas e uma ovelha.”
A morte se aproximou do homem de Amuria.  Salman repetiu seus pedidos, mas [dessa vez] a resposta foi diferente.
O homem disse: “Ó filho! Não conheço ninguém da mesma religião que nós. Entretanto, emergirá um profeta durante a sua vida, e esse profeta é da mesma religião de Abraão.”
O homem descreveu esse profeta, dizendo: “Ele será enviado com a mesma religião de Abraão. Virá da terra da Arábia e migrará para um lugar localizado entre duas terras cheias de pedras negras [como se tivessem sido queimadas pelo fogo]. Existem tamareiras espalhadas no meio dessas duas terras. Ele pode ser reconhecido por certos sinais. Ele aceitará e comerá do alimento que lhe for dado como presente, mas não comerá da caridade. O selo dos profetas estará entre seus ombros. Se puder ir para aquela terra, faça-o.”


Footnotes:
[1] Al-Haithami coletou essa narração em Majma’ Al-Zawa’id.
[2] Isfahan: uma região no noroeste do Irã.
 Seu pai era um zoroastriano que adorava o fogo.
[4] Al-Shaam: abrange as regiões conhecidas hoje como Líbano, Síria, Palestina e Jordânia.
[5] Um ponto importante a destacar aqui é Salman não se afastou do que achava que fosse a verdade naquela época por causa das ações de uma pessoa. Não disse: “Olhe aqueles cristãos! O melhor deles é muito mau!” Ao invés disso, compreendeu que tinha que julgar a religião por suas crenças e não por seus adeptos.
[6] Al-Musil: uma grande cidade no noroeste do Iraque.
[7] Nasibin: uma cidade na estrada entre Al-Musil e Al-Shaam.
[8] Amuria: uma cidade que era parte da região oriental do Império Romano

Abu Bakr, o verídico (parte 3 de 3): O protetor

Descrição: Abu Bakr usou seu bom senso, riqueza e força para proteger seus companheiros.
Por Aisha Stacey



Abu Bakr era um homem perspicaz.  Capaz de discernir a verdade quando outros estavam confusos pelas complexidades de uma situação.  Portanto, achou muito fácil ver a verdade no Islã, mas percebeu que as palavras de Muhammad causariam uma divisão na sociedade de Meca.  Os líderes de Meca não tolerariam nada que prejudicasse sua situação econômica e estilo de vida.  Abu Bakr sabia que tempos difíceis estavam por vir e sentiu que era seu dever proteger seu companheiro, o profeta Muhammad.  Os dois amigos se viam diariamente e a amizade se fortaleceu à medida que sua compreensão do Islã aumentou e se enraizou em seus corações.  Por três anos o Islã floresceu em segredo.  Os novos muçulmanos espalharam a mensagem do Islã por meio de uma rede de famílias e amigos de confiança, mas veio o momento em que Deus ordenou o profeta Muhammad a propagar a mensagem em público.
Abu Bakr entendeu que a vida se tornaria difícil, já que os líderes de Meca perceberam quantas pessoas estavam aceitando o Islã.  Sabia que o profeta Muhammad precisaria de sua proteção, mas com o passar dos meses Abu Bakr também assumiu o papel de protetor de muitos novos muçulmanos.  Como mais e mais pessoas se convertiam ao Islã, os líderes não-muçulmanos de Meca começaram uma campanha de perseguição e abuso destinada a destruir a nova fé.  A maioria dos homens, mulheres e crianças das tribos de Meca tinham a proteção de suas famílias, mas os escravos e os pobres eram particularmente vulneráveis.
Os escravos e os destituídos eram particularmente atraídos pelos ensinamentos do Islã.  Ouviam as palavras de igualdade, liberdade e misericórdia do Deus Verdadeiro e Único e viam como uma forma de escapar da brutalidade de suas existências e encontrar conforto no perdão e amor de Deus.  Aprenderam que todos os homens eram servos de Deus e que Ele oferecia orientação e proteção a todos, não apenas à elite.  Abu Bakr era um comerciante rico, capaz de aliviar o sofrimento de muitos escravos comprando-os de seus donos e libertando-os.
Entre os escravos libertados por Abu Bakr estava Bilal[1], o homem destinado a se tornar o primeiro a chamar os crentes para a oração.  O dono de Bilal fez com que ele deitasse na areia escaldante com grandes placas de rocha sobre o peito, mas Bilal se recusou a abrir mão de sua nova crença.  Quando Abu Bakr soube da condição de Bilal, correu para libertá-lo.  No total Abu Bakr libertou oito escravos, quatro homens e quatro mulheres.  Embora a compra e libertação de escravos não fossem desconhecidas na sociedade de Meca, geralmente eram feitas por razões menos altruísticas.  Quando um escravo era liberto, estava preso por uma questão de honra a oferecer sua proteção àquele que o libertou e por essa razão os mecanos ricos libertavam escravos fortes e em forma.  Abu Bakr libertava escravos por amor a Deus, não para si mesmo.
"Que aplica os seus bens, com o fito de purificá-los. E não faz favores a ninguém com o fito de ser recompensado, senão com o intuito de ver o Rosto do seu Senhor, o Altíssimo; E logo alcançará (completa) satisfação." (Alcorão 92:18-21)

Protegendo seu companheiro

Um dia, quando o profeta Muhammad estava na Caaba (Casa de Deus), os mecanos o cercaram, começando a insultar e abusar verbalmente dele, o que rapidamente se desenvolveu para abuso físico.  Informaram a Abu Bakr de que seu companheiro precisava de sua ajuda e ele correu para a Caaba e entrou no meio da briga, se colocando entre o profeta Muhammad e seus agressores.  Gritou:"Matariam um homem por dizer que Allah é seu Senhor?"[2]  Os mecanos ficaram momentaneamente atordoados, mas em segundos caíram sobre Abu Bakr e o espancaram sem misericórdia.  O espancamento foi tão severo que o sangue jorrou de sua cabeça e encharcou seu cabelo.
Em outra ocasião, quando o profeta estava orando, um dos integrantes da elite de Meca amarrou um pedaço de pano no pescoço dele e começou a estrangulá-lo.  Embora as pessoas vissem o que estava acontecendo, ninguém teve coragem suficiente para socorrer o profeta Muhammad.  Quando Abu Bakr entrou na Caaba e viu o que estava acontecendo com seu amigo, correu e lutou com o agressor.
Uma história que vem de Ali ibn Abu Talib resume a reputação de Abu Bakr como uma pessoa capacitada e calma que nunca colocou suas próprias necessidades em primeiro lugar e era devotado ao Islã e seu mensageiro, o profeta Muhammad.  Quando Ali foi o líder os muçulmanos, muitos anos depois das mortes do profeta Muhammad e de Abu Bakr, fez um discurso no qual perguntou à audiência: "Quem é o homem mais corajoso no Islã?"  A audiência respondeu: "Você! Ameer Al Mumineen (líder dos crentes)". Ali tinha uma grande reputação como guerreiro e combatente corajoso.  Ele olhou para os homens sentados diante dele e disse: "É verdade que nunca enfrentei um oponente e perdi, mas não sou o mais corajoso.  Essa honra pertence a Abu Bakr."
Ali prosseguiu relatando que na batalha de Badr, a primeira batalha que a nação muçulmana em formação enfrentou, os muçulmanos se recusaram a deixar o profeta Muhammad na linha de frente e, ao invés disso, construíram um abrigo para ele na retaguarda.  Foi perguntado aos homens quem era voluntário para guardar o profeta, mas ninguém se apresentou, exceto Abu Bakr.  O profeta Muhammad ficou no abrigo por algum tempo, orando pelo sucesso de sua pequena nação, e Abu Bakr pode ser visto caminhando de um lado para o outro, sua espada desembainhada, pronto para repelir qualquer ameaça a seu amado companheiro.
Mais tarde na batalha, o profeta Muhammad liderou o batalhão central e Abu Bakr no flanco direito.  Eram amigos unidos em todas as circunstâncias, em tempos de facilidade e dificuldade.  Abu Bakr é um exemplo de homem corajoso, preparado para usar sua riqueza, habilidades e força a serviço do Islã e pronto para dar sua vida por Deus ou para proteger o mensageiro de Deus.

Palavras de louvor

Ali ibn Abu Talib fez a oração do funeral de Abu Bakr.  As passagens a seguir são apenas uma pequena amostra de suas palavras para louvar o companheiro mais próximo do profeta Muhammad.
"Você o apoiou quando outros o desertaram e permaneceu firme ajudando-o nos infortúnios quando outros tinham retirado o apoio.
Tinha a voz mais baixa, mas a distinção mais alta.  Sua conversa era a mais exemplar e seu raciocínio o mais justo. Seu silêncio era o mais longo e seu discurso o mais eloquente.  O mais bravo entre os homens e bem informado sobre as questões, sua ação foi dignificada."  Assim era Abu Bakr, o protetor.


Notas de rodapé:
[1] Saheeh Al-Bukhari
[2] Saheeh Al-Bukhari

Abu Bakr, o verídico (parte 2 de 3)


Descrição: Dois amigos enfrentam o perigo e colocam suas confiança em Deus.
Por Aisha Stacey


O profeta Muhammad, que Deus o cubra com louvores, e companheiro próximo Abu Bakr tinham menos de três anos de diferença.  Ambos nasceram na mesma tribo árabe, os Coraixitas, mas de clãs diferentes.  A maior parte da infância do profeta Muhammad foi passada em pobreza relativa, enquanto que Abu Bakr vinha de uma família relativamente rica.  Ambos viviam e se comportavam de maneira calma e digna e ambos tinham eliminado a idolatria de suas vidas.  Quando o profeta Muhammad recebeu sua missão de propagar a mensagem do Islã, o primeiro homem para o qual se voltou foi seu amigo Abu Bakr.  Sem momentos de hesitação Abu Bakr aceitou o Islã e começou uma jornada de dedicação e amor que durou o resto de sua vida.
Abu Bakr amava profundamente seu amigo e estava pronto e apto a aceitar facilmente a verdade do Islã.  Quando ouviu a mensagem de que Deus era Único, estava pronto para aceitar o que já sabia ser verdade.  Sua filha Aisha narrou que em toda sua vida Abu Bakr nunca se prostrou para um ídolo.  O próprio Abu Bakr relata que quando era criança, seu pai o levou a um lugar de ídolos e o deixou lá entre as estátuas.  O menino olhou para os objetos inanimados ao seu redor e perguntou a eles qual benefício poderiam lhe proporcionar.  Quando os ídolos foram incapazes de responder, Abu Bakr decidiu que não adoraria algo que não podia ouvir ou ver.  De maneira inata compreendeu que estátuas e ídolos não merecem adoração.
O amor de Abu Bakr pelo Deus Verdadeiro e Único e seu apoio a seu amigo Muhammad significaram que no início do Islã fosse frequentemente perseguido e espancado sem misericórdia.  A maioria dos mecanos odiava ouvir a mensagem reforma e prestação de contas vinda de Muhammad.  Eram guardiões da idolatria e tinham uma receita muito grande feita dos peregrinos que visitavam um ou mais ídolos adorados em Meca.  Se Muhammad tivesse sucesso em unir o povo na adoração do Deus Único e seus modos corruptos fossem erradicados, suas vidas mudariam de maneira irreversível.

A migração

O tratamento chocante, a tortura e a brutalidade direcionada aos muçulmanos fez com que o profeta Muhammad enviasse muitos deles para longe, para sua própria proteção.  A segunda das duas migrações foi para a cidade próxima de Yathrib, mais tarde chamada de Medina.  Embora seja frequentemente chamada de fuga, na verdade foi uma migração planejada de forma cuidadosa.  As duas tribos de Yathrib tinham negociado um tratado com o profeta Muhammad e ofereceram a ele sua aliança e proteção, mas naquele estágio o profeta Muhammad não tinha recebido permissão de Deus para deixar Meca.  Ele, entretanto, enviou seus seguidores para Yathrib em grupos pequenos o suficiente para não atrair a atenção dos mecanos.
Um dia no calor do meio-dia o profeta Muhammad visitou a casa de seu amigo Abu Bakr.  As ruas de Meca estavam desertas e Abu Bakr sabia que essa visita era de grande importância, porque essa hora do dia era reservada para o descanso.  O profeta Muhammad pediu a Abu Bakr para "esvaziar a casa", significando que tinha algo importante e particular para discutir.  Abu Bakr respondeu: "Essa e sua família."  O profeta Muhammad entrou e revelou a seu amigo que Deus havia lhe dado permissão para deixar Meca.  Aisha narra que o pai chorou quando ouviu que seria o companheiro do profeta Muhammad na viagem.
Abu Bakr chorou não de medo, embora soubesse que a viagem seria perigosa, mas de pura alegria.  Essa era uma oportunidade de passar mais que dez dias viajando sozinho com seu companheiro mais querido.  Era uma oportunidade de passar muitos dias e noites bebendo da fonte da missão profética.  Abu Bakr anunciou que tinha camelos preparados e estava pronto para ir, porque ele também estava esperando que seu companheiro Muhammad recebesse permissão para partir.  Naquela noite os dois amigos saíram pela porta dos fundos e caminharam na paisagem escura do deserto.

A busca

Quando os mecanos perceberam que o profeta Muhammad tinha escapado de Meca, escapando de seus planos para matá-lo, ficaram furiosos.  As buscas começaram pelas áreas vizinhas.  Embora suspeitassem que o profeta Muhammad estivesse a caminho de Yathrib, enviaram olheiros para todas as direções.  Abu Bakr e o profeta Muhammad passaram três dias escondidos em uma caverna ao sul de Meca.
Em um dado momento um grupo de busca chegou tão perto da entrada da caverna que Abu Bakr pode ver os sapatos dos integrantes do grupo acima dele.  Estava cheio de medo e trepidação, não por si próprio, porque era um homem corajoso, mas seu amigo querido.  Abu Bakr sussurrou: "Mensageiro de Deus, se olharem para baixo nos verão!" O profeta Muhammad respondeu: "Abu Bakr, o que você acha de duas pessoas em que Deus é o terceiro?"  Deus revelou o versículo seguinte do Alcorão em resposta a esse momento comovente.
"Se não o socorrerdes (o Profeta), Deus o socorrerá, como fez quando os incrédulos o desterraram. Quando estava na caverna com um companheiro, disse-lhe: Não te aflijas, porque Deus está conosco! Deus infundiu nele o Seu sossego, confortou-o com tropas celestiais que não poderíeis ver, rebaixando ao mínimo a palavra dos incrédulos, enaltecendo ao máximo a palavra de Deus, porque Deus é Poderoso, Prudentíssimo." (Alcorão 9:40)
Os mecanos zangados e frenéticos pararam do lado de fora da caverna, mas não entraram.  Uma aranha tinha tecido uma teia na entrada da caverna, fazendo parecer que ninguém havia entrado na caverna há muito tempo.  Abu Bakr compreendeu as palavras de seu amado amigo de que o poder de Deus se manifesta nos lugares menos esperados.  Uma aranha pequena e frágil tecendo uma teia de ocultação era mais poderosa que um exército.  Abu Bakr, o primeiro homem a entrar no Islã se tornou um de dois.  Dois amigos unidos em uma missão, ligados por seu amor e pela nação muçulmana que se formava, fortalecidos por seu amor ao Deus Verdadeiro e Único.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Abu Bakr, o verídico (parte 1 de 3): O primeiro

Descrição: Um homem devoto aceita o Islã e entra na história.
Por Aisha Stacey




Se tivesse tomado alguém como meu amigo mais próximo, tomaria Abu Bakr, mas ele é meu irmão e companheiro."[1]  Essas são as palavras do profeta Muhammad, que Deus o cubra com louvores, e Abu Bakr era seu companheiro terreno mais próximo.  Abu Bakr era conhecido como As Siddiq (o verídico).  A palavra árabe Siddiq implica mais do que ausência de mentira, indica uma pessoa em estado constante de veracidade.  Alguém que reconhece a verdade e adere a ela.  A palavra Siddiq implica veracidade consigo mesmo, aqueles ao nosso redor e, mais importante, com Deus.  Abu Bakr era esse homem.
O profeta Muhammad mostrava seu grande amor e respeito por Abu Bakr ao associá-lo ao conceito de "amigo mais próximo".  Em árabe a palavra usada é kalile denota mais que amizade e sim uma proximidade sincera com uma conexão inquebrável.  O profeta Abraão era conhecido como o kalil de Deus e o próprio profeta Muhammad reservou essa palavra para sua relação com Deus, mas sua conexão com Abu Bakr envolvia uma relação especial.

Histórico

Os ditos do profeta Muhammad e a história do Islã nos contam que Abu Bakr nasceu pouco mais de dois anos depois do profeta Muhammad e que ambos nasceram na tribo dos Coraixitas, embora em clãs diferentes.  Abu Bakr nasceu em uma família razoavelmente rica e se estabeleceu como um negociante bem-sucedido.  Era um homem agradável e acessível que tinha uma grande rede social.
Abu Bakr amava conversar e se comunicar com todos ao redor ele e era um especialista em genealogia árabe.  Sabia os nomes e locais das tribos árabes e entendia suas qualidades boas e más.  Foi esse conhecimento que lhe permitiu se misturar facilmente com pessoas muito diversas e exercer grande influência na sociedade de Meca.
Quando o profeta Muhammad casou com sua primeira esposa Khadija, ele e Abu Bakr se tornaram vizinhos e constataram que compartilhavam de muitas características.  Ambos eram comerciantes e conduziam seus negócios com honestidade e integridade.
 Ambos evitavam o vício e corrupção que abundavam na Arábia pré-islâmica e ambos evitavam a idolatria.  Reconheceram-se mutuamente como espíritos afins e desenvolveram uma amizade ao longo da vida.

O primeiro

Abu Bakr As Siddiq foi a primeira pessoa que deu atenção à mensagem do profeta Muhammad e entrou no Islã.  Quando ouviu o profeta Muhammad dizer que não havia nada merecedor de adoração exceto Deus e que ele (Muhammad) era o mensageiro de Deus, Abu Bakr aceitou o Islã sem quaisquer reservas.  Para todos que entraram no Islã ou reacenderam a fé perdida, houve um obstáculo, um momento de hesitação, mas não para Abu Bakr.  A doçura da fé entrou em seu coração e aquele que era conhecido como verídico, reconheceu a verdade.
No início quando a mensagem foi revelada, o profeta Muhammad convidava para o Islã as pessoas ao seu redor em segredo.  Ele sabia que sua mensagem chocaria e assombraria os mecanos que estavam profundamente enraizados na ignorância.  Queria construir um grupo de seguidores que lentamente transmitiria a mensagem, propagando-a em círculos cada vez maiores.  Quando havia 38 muçulmanos, Abu Bakr foi a seu amado amigo profeta Muhammad e disse que queria proclamar a mensagem em público.
O profeta Muhammad recusou, pensando que o número era pequeno para arriscar uma exposição.  Abu Bakr insistiu e continuou mencionando isso a seu companheiro.  Quando o profeta Muhammad recebeu a ordem de Deus para tornar a mensagem pública, ele e Abu Bakr foram até a Caaba (a casa de Deus no centro de Meca).  Abu Bakr se levantou e proclamou em voz alta: "Não há divindade exceto Allah e Muhammad é Seu servo e mensageiro."  Abu Bakr foi o primeiro porta-voz público pelo Islã.
Quando o profeta Muhammad morreu os muçulmanos ficaram devastados, alguns até se recusaram a aceitar a verdade.  Seus corações estavam partidos.  Embora dominado pela dor, Abu Bakr se dirigiu ao povo, louvou e glorificou a Deus e disse: "Quem adorava Muhammad, Muhammad está morto, mas quem adorava a Deus, Deus é eterno e nunca morre."[2]  Então recitou os versículos do Alcorão. 
"(O Muhammad) Verdadeiramente tu morrerás e eles morrerão." (Alcorão 39:30)
"Muhammad não é senão um Mensageiro, a quem outros mensageiros precederam. Porventura, se morresse ou fosse morto, voltaríeis à incredulidade? Mas quem voltar a ela em nada prejudicará Deus; e Deus recompensará os agradecidos." (Alcorão 3:144)
Durante essa grande crise os muçulmanos devastados escolheram Abu Bakr como líder.  Ele foi o primeiro califa (líder dos muçulmanos).
O sobrinho do profeta Muhammad, Ali ibn Abu Talib, louvou Abu Bakr como a primeira pessoa a entrar no Islã e a primeira a realizar boas ações.[3]  No Islã, competir uns com os outros para fazer boas ações não só é aceitável, mas também encorajado.  O profeta Muhammad exortava seus seguidores a se comportarem facilmente nas questões desse mundo, mas competirem entre si em relação à vida eterna no paraíso.  O historiador muçulmano At Tabarani cita o companheiro virtuoso Ibn Abbas dizendo: "Abu Bakr... superou todos os companheiros do profeta Muhammad em devoção e retidão, renúncia dos bens mundanos e confiança em Deus."  Dos ditos do profeta Muhammad aprendemos que Abu Bakr será a primeira pessoa a entrar no paraíso depois dos profetas de Deus.[4]  Abu Bakr - o primeiro!


Notas de rodapé:
[1] Saheeh Al-Bukhari
[2] Saheeh Al-Bukhari
[3] Ali ibn Abu Talib no funeral de Abu Bakr.
[4] Abu Dawood.

Um Vislumbre da Espanha Muçulmana


Descrição: Com a chegada dos muçulmanos na Espanha, a terra antes árida e iletrada se tornou a capital da erudição e agricultura européias, onde as pessoas de todas as crenças tinham segurança sob governo muçulmano.
Por Dean Derhak (editado por IslamReligion.com)








Quando se pensa na cultura européia uma das primeiras coisas que podem vir à mente é a renascença.  Muitas das raízes da cultura européia podem ser traçadas a partir daquele tempo glorioso de arte, ciência, comércio e arquitetura.  Mas você sabia que muito antes da renascença havia um lugar de beleza humanística na Espanha muçulmana?  Não somente era artística, científica e comercial, ma também exibia tolerância, imaginação e poesia incríveis.  Os muçulmanos habitaram a Espanha por quase 700 anos.  Como você poderá ver, foi sua civilização que iluminou a Europa e a tirou da idade das trevas para introduzi-la na renascença.  Muitas das suas influências culturais e intelectuais continuam vivas conosco hoje.
Muito tempo atrás, durante o século oito, a Europa continuava imersa no período medieval.  Essa não era a única coisa na qual estava imersa.  Em seu livro, “The Day The Universe Changed” (O Dia que o Universo Mudou, em tradução livre), o historiador James Burke descreve como típicos cidadãos europeus viviam:
“Os habitantes lançavam todo seu esgoto em valas no centro das ruas estreitas”. O fedor devia ser insuportável, embora aparentemente tenha passado virtualmente despercebido. Misturados com excremento e urina estavam juncos e palhas encharcados, usados para cobrir os chãos de terra. (p. 32)
Essa sociedade esquálida era organizada sob um sistema feudal e pouco lembrava uma economia comercial.  Junto com outras restrições, a Igreja Católica proibia o empréstimo de dinheiro – o que não ajudava muito a impulsionar as coisas.  “O antissemitismo, antes raro, começou a crescer. O empréstimo de dinheiro, que era proibido pela Igreja, era permitido sob a Lei Judaica.” (Burke, 1985, p. 32). Os judeus trabalharam para desenvolver uma moeda, embora fossem muito perseguidos por isso.  A Europa medieval era uma região miserável, na qual imperavam o analfabetismo, superstição, barbarismo e imundície.
Durante esse mesmo período os muçulmanos entraram na Europa pelo sul.  Abd al-Rahman I, um sobrevivente de uma família de califas do império muçulmano, alcançou a Espanha em meados dos anos 700.  Tornou-se o primeiro califa de Al-Andalus, a parte muçulmana da Espanha, que ocupou a maior parte da Península Ibérica.  Ele também estabeleceu a Dinastia Omíada que governou Al-Andalus por mais de trezentos anos.  (Grolier, History of Spain (História da Espanha)).  Al-Andalus significa “a terra dos vândalos”, a partir do qual vem o nome moderno Andaluzia.
A princípio a terra se parecia com o resto da Europa em toda sua miséria.  Mas dentro de duzentos anos os muçulmanos tinham transformado Al-Andalus em um bastião de cultura, comércio e beleza.
“Sistemas de irrigação importados da Síria e Muslimia transformaram as planícies secas... em uma cornucópia agrícola. Azeitonas e trigo sempre cresceram lá. Os muçulmanos acrescentaram romãs, laranjas, limões, berinjelas, alcachofras, cominho, coentro, bananas, amêndoas, henna, isatis, garança, açafrão, cana de açúcar, algodão, arroz, figos, uvas, pêssegos e abricós.” (Burke, 1985, p. 37).
Por volta do início do século nove, a Espanha muçulmana era a gema da Europa com sua capital, Córdoba.  Com o estabelecimento de Abd al-Rahman III – “o grande califa de Córdoba” – veio a era dourada de Al-Andalus.  Córdoba, ao sul da Espanha, era o centro intelectual da Europa.
Em uma época em que Londres era uma pequena aldeia lamacenta que “não podia ostentar uma simples lâmpada de rua” (Digest, 1973, p. 622), em Córdoba ...
“… existia meio milhão de habitantes, vivendo em 113.000 casas. Havia 700 mesquitas e 300 banhos públicos espalhados pela cidade e seus vinte e um subúrbios. As ruas eram pavimentadas e iluminadas.” (Burke, 1985, p. 38)
“As casas tinham balcões de mármore para o verão e dutos de ar quente sob pisos de mosaico para o inverno. Eram adornadas com jardins com fontes artificiais e pomares.” (Digest, 1973, p. 622). “O papel, um material ainda desconhecido para o ocidente, estava em toda parte. Havia livrarias e mais de setenta bibliotecas.” (Burke, 1985, p. 38).
Em seu livro intitulado “Spain In The Modern World” (Espanha no Mundo Moderno, em tradução livre), James Cleuge explica o significado de Córdoba na Europa medieval:
“Não havia nada semelhante, naquela época, no resto da Europa. As melhores mentes naquele continente olhavam para a Espanha para tudo que mais claramente diferencia um ser humano de um tigre.” (Cleuge, 1953, p. 70)
Durante o fim do primeiro milênio, Córdoba era a fonte intelectual na qual a humanidade européia vinha beber.  Estudantes da França e Inglaterra viajavam para se sentar aos pés de eruditos muçulmanos, cristãos e judeus, para aprender filosofia, ciência e medicina (Digest, 1973, p. 622).  Só na grande biblioteca de Córdoba havia em torno de 600.000 manuscritos (Burke, 1978, p. 122).
Essa sociedade rica e sofisticada adotava uma visão tolerante em relação as outras crenças.  Não se ouvia sobre tolerância no resto da Europa.  Mas na Espanha muçulmana, “milhares de judeus e cristãos viviam em paz e harmonia com seus governantes muçulmanos.” (Burke, 1985, p. 38)
Infelizmente, esse período de prosperidade intelectual e econômica começou a declinar.  Afastando-se do governo pela lei, começaram a haver disputas internas na estrutura de poder muçulmana.  A harmonia muçulmana começou a se fracionar em facções rivais.  Finalmente, os califas foram eliminados e Córdoba caiu para outras forças muçulmanas.  “Em 1013 a grande biblioteca de Córdoba foi destruída. Leais às suas tradições islâmicas, entretanto, os novos governantes permitiram que os livros fossem dispersos, junto com eruditos cordobeses para as capitais de pequenos emirados.” (Burke, 1985, p. 40). As propriedades intelectuais da antes grande Al-Andalus foram divididas entre pequenas cidades.
... os cristãos ao norte estavam fazendo justamente o oposto.  No norte da Espanha os vários reinos cristãos se uniram para expulsar os muçulmanos do continente europeu.  (Grolier, History of Spain). Isso preparou o cenário para o ato final do período medieval.
Em outro trabalho de James Burke intitulado “Connections” (Conexões), ele descreve como os muçulmanos tiraram a Europa da Idade das Trevas.  “Mas o evento que deve ter feito mais pelo renascimento intelectual e científico da Europa foi a queda de Toledo na Espanha para os cristãos, em 1105.” Em Toledo os muçulmanos tinham bibliotecas enormes contendo os trabalhos perdidos (para a Europa cristã) dos gregos e romanos, junto com filosofia e matemática muçulmanas.  “As bibliotecas espanholas foram abertas, revelando um estoque de trabalhos clássicos e muçulmanos que estontearam os europeus cristãos.” (Burke, 1978, p. 123)
A pilhagem intelectual de Toledo trouxe os eruditos do norte da Europa como mariposas para uma vela.  Os cristãos estabelecerem um enorme programa de tradução em Toledo.  Usando os judeus como intérpretes, traduziram os livros muçulmanos para o latim.  Esses livros incluíam “a maioria dos principais trabalhos da ciência e filosofia grega...  junto com muitos trabalhos muçulmanos de erudição originais.” (Digest, p. 622)
“A comunidade intelectual que os eruditos do norte encontraram na Espanha era tão superior ao que tinham em casa que deixou uma inveja permanente da cultura muçulmana, que influenciaria as opiniões ocidentais por séculos” (Burke, 1985, p. 41).
“Os assuntos cobertos pelos textos incluíam medicina, astrologia, astronomia, farmacologia, psicologia, fisiologia, zoologia, biologia, botânica, mineralogia, ótica, química, física, matemática, álgebra, geometria, trigonometria, música, meteorologia, geografia, mecânica, hidrostática, navegação e história.” (Burke, 1985, p. 42)
Somente esses trabalhos, entretanto, não acenderam o fogo que levaria à renascença.  Acrescentaram ao conhecimento europeu, mas boa parte deles não era apreciada sem uma mudança na forma como os europeus viam o mundo.
Lembre-se, a Europa medieval era supersticiosa e irracional.  “O que provocou a explosão intelectual, entretanto, foi a filosofia que veio com os livros.” (Burke, 1985, p. 42)
Os cristãos continuaram a reconquistar a Espanha, deixando morte e destruição em seu caminho.  Os livros foram poupados, mas a cultura moura foi destruída e sua civilização desintegrada.  Ironicamente, não foi apenas a força dos cristãos que derrotou os muçulmanos, mas a desarmonia entre as próprias fileiras dos muçulmanos.  Como Grécia e Roma que os precederam, os muçulmanos de Al-Andalus entraram em decadência moral[1] e se desviaram do intelecto que os tinham tornado grandes.
As traduções continuavam a medida que cada refúgio muçulmano caía para os cristãos.  Em 1492, o mesmo ano que Colombo descobriu o Novo Mundo, Granada, o último enclave muçulmano, foi tomada.  Os captores do conhecimento não foram os mantenedores de sua sabedoria.  Lamentavelmente, todos os judeus e muçulmanos que não abandonaram suas crenças foram mortos ou exilados (Grolier, History of Spain).  Assim terminou uma época de tolerância e tudo que restou dos muçulmanos foram seus livros.
É fascinante perceber o quanto a Europa aprendeu dos textos muçulmanos e ainda mais ver o quanto aquele conhecimento tem resistido.  Por causa da avalanche de conhecimento, começaram a aparecer as primeiras universidades.  Títulos universitários foram desenvolvidos (Burke, 1985, p. 48).  Diretamente dos muçulmanos vieram os números que usamos hoje.  Até o conceito de zero (uma palavra muçulmana) veio das traduções (Castillo & Bond, 1987, p. 27).  Também é justo dizer que os conceitos de renascença arquitetônica vieram das bibliotecas muçulmanas.  A matemática e arquitetura explicadas nos textos muçulmanos, junto com trabalhos muçulmanos em ótica, levaram às pinturas em perspectiva do período renascentista (Burke, 1985 p. 72).  Os primeiros advogados começaram sua atividade usando o conhecimento recém-traduzido como orientação.  Até os utensílios de comida que usamos hoje vêm da cozinha de Córdoba! (Burke, 1985 p. 44). Todos esses exemplos mostram apenas algumas das maneiras que os muçulmanos transformaram a Europa.

Footnotes:
[1] Ao deixarem os princípios de sua religião – IslamReligion.

Islã na China (parte 2 de 2)

Descrição: A propagação do Islã na China na sua chegada e um olhar sobre as várias mesquitas construídas naquela época.
Por Mohammed Khamouch




Sad e sua delegação trouxeram presentes e foram recebidos calorosamente na corte real pelo imperador t’ang Kao-tsung (reinou de 650-683) em 651 E.C, apesar de um apelo recente de apoio contra os árabes apresentado ao imperador no mesmo ano pelo xá Peroz (governante da Pérsia sassânida).  Era um filho de Yazdegerd que, junto com os bizantinos, já tinha baseado suas embaixadas na China há uma década.  Juntos eram os dois maiores poderes no ocidente.  Um apelo semelhante feito ao imperador Tai Tsung (reinou de 627-649) contra a propagação simultânea de exércitos muçulmanos foi recusada.
As primeiras notícias sobre o Islã já tinham alcançado a corte real de T’ang durante o reinado do imperador Tai Tsung, quando ele foi informado por uma embaixada do rei sassânida da Pérsia e também pelos bizantinos da emergência do governo islâmico.  Ambos buscaram proteção do poderoso da China.  Entretanto, o segundo ano do reinado de Kao-tsung marca a primeira visita oficial por um embaixador muçulmano.
O imperador, após fazer questionamentos sobre o Islã, deu aprovação geral para a nova religião, que considerou compatível com os ensinamentos de Confúcio.  Mas sentiu que as cinco orações diárias canônicas e um mês de jejum eram exigências muito severas para seu gosto e não se converteu.  Permitiu a Sad Ibn Abi Waqqas e sua delegação liberdade para propagar sua fé e expressou sua admiração pelo Islã, que consequentemente ganhou uma base sólida no país.
Sad posteriormente se estabeleceu em Guangzhou e construiu a mesquita Huaisheng que foi um evento importante na história do Islã na China.  É supostamente a mesquita mais antiga que sobreviveu em toda a China e tem mais de 1.300 anos.  Sobreviveu ao longo de vários eventos históricos que inevitavelmente ocorreram do lado de fora de suas portas.  Essa mesquita continua de pé e em excelentes condições na moderna Guangzhou depois de reparos e restaurações.
É contemporânea de Da Qingzhen Si (Grande Mesquita) de Chang’an (atual Xi’an) na província de Shaanxi, fundada em 742 C.E. É a maior (12.000 metros quadrados) e a melhor das primeiras mesquitas na China, tendo sido belamente preservada à medida que se expandiu ao longo dos séculos.  O espaço atual foi construído pela dinastia Ming em 1392 E.C, um século antes da queda de Granada, sob seu (aparente) fundador Hajj Zheng He, que tinha uma tábua de pedra na mesquita em comemoração ao seu apoio generoso, que foi fornecido pelo agradecido imperador.





Um excelente modelo da Grande Mesquita com todos os seus arredores e a aparência magnificente e elegante de seus pavilhões e pátios pode ser visto no museu Hong Kong, colocado graciosamente ao lado do modelo da mesquita Huaisheng.  Foi afortunado visitar a mesquita real ano passado durante a oração de Asr e depois encontrar com o imame, que me mostrou um antigo Alcorão manuscrito e me presenteou com uma touca branca.
Caminhar para o salão de oração é como viajar através de um oásis oriental confinado em uma cidade proibida para os impuros.  Um símbolo de dragão está esculpido na base da entrada oposta do salão de oração, demonstrando o encontro entre o Islã e a civilização chinesa.  Em tudo é um encontro fascinante da arquitetura da China oriental com o gosto elegante nativo de Harun ar-Rashid (147-194 AH/764-809 EC) de Bagdá - uma cidade recém-fundada que se tornaria a maior entre Constantinopla e China, cinquenta anos depois da época de Harun.
A Sheng-You Si (Mesquita do Amigo Sagrado), também conhecida como Qingjing Si (Mesquita da Pureza) e Mesquita Al-Sahabah (Mesquita dos Companheiros) foi construída em granito puro em 1009 E.C. durante a dinastia Song do norte (960-1127). Seu projeto e estilo arquitetônicos foram moldados a partir da Grande Mesquita de Damasco (709-715) na Síria, fazendo do par as mesquitas mais antigas existentes a sobreviverem (na forma original) até o século 21.
A mesquita Qingjing está localizada na “Madinat al-Zaytun” (Quanzhou) ou, em português, “Cidade das Azeitonas” na província de Fujian, onde dois companheiros do profeta que acompanharam a delegação de Sad Ibn Abi Waqqas à China também foram enterrados.  São conhecidos pelas pessoas do local por seus nomes chineses de “Sa-Ke-Zu e Wu-Ku-Su”.
Acredita-se que a Zhen-Jiao Si (Mesquita da Verdadeira Religião), também conhecida como Feng-Huang Si (a Mesquita Fênix) em Hangzhou, província de Zhejiang, seja da dinastia Tang.  Tem um portal de vários andares que serve como minarete e uma plataforma para observar a lua.  A mesquita tem uma longa história e foi reconstruída e renovada em várias ocasiões ao longo dos séculos.  Está muito menor do que costumava ser, especialmente com o alargamento da estrada em 1929, e foi parcialmente reconstruída em 1953.
A outra mesquita antiga está localizada na cidade de Yangzhou na província de Jiangsu, que já foi a cidade de comércio e negócios mais movimentada durante a dinastia Song (960-1280). A Xian-He Si (Mesquita da Garça Azul Imortal) é a mais antiga e maior na cidade e foi construída em 1257 E.C por Pu-ha-din, um pregador muçulmano que era da décima-sexta geração de descendentes do profeta Muhammad.
De acordo com historiadores chineses muçulmanos, Sad Ibn Abi Waqqas morreu em Guangzhou onde se acredita que foi enterrado.  Entretanto, os estudiosos árabes discordam, afirmando que Sad morreu e foi enterrado em Medina entre outros companheiros.  Definitivamente existe um túmulo, enquanto que o outro é simbólico, e somente Deus sabe se é na China ou em Medina.  Como se pode ver, a propagação do Islã na China foi de fato pacífica.  A primeira delegação alcançou o sudeste via Zhu Jiang (o rio Pérola) e foi posteriormente seguida por contato através de uma rota terrestre a partir do noroeste.  Comunidades muçulmanas estão presentes em uma ampla área geográfica na China hoje, incluindo algumas em locais remotos do Tibet, onde uma vez encontrei muçulmanos tibetanos no meio do nada, enquanto fazia uma trilha.